quarta-feira, 31 de março de 2010

EU

Mais um dia que perdi ocupado sem nada criar. Encontro razões nas pequenas coisas que de ridículo tudo têm, mas que pelo menos preenchem o meu tempo com algum sentido de valor mesmo que no meu intimo reconheça que em nada contribuem para a minha realização. Faço os possíveis por prolongar qualquer tarefa, encontrando formas de a arrastar para além da fracção de tempo reduzida que outrora lhe concedia sem contemplações. Divago... Complico o óbvio, removendo do meu léxico a matemática objectividade que me caracteriza.  Não me quero afastar de tantas coisas que se cruzam comigo nas palavras. São elas as testemunhas silenciosas do Eu Mesmo que se esconde e pouco revela de si.

Reflexão

Afinal por que penso sequer em terminar com este Caos que me acompanha?... Querer esquecer não é razão suficiente... Mas sim pretendo esquecer o tudo que passei... As mentiras... As omissões... As traições... Os dois pesos e as duas medidas... O sentir-me culpado... A dor... A mágoa... O desengano... A ilusão...  O Desencontro... Os sonhos que não passaram disso mesmo... A forma inocente como acreditei... O como tudo aceitei... O quanto me neguei e reduzi a mim próprio... Sim... Tudo almejo esquecer... Erradicar em mim... Extirpar de mim... Perdoar-me... Calar-me gritando para mim próprio o quanto fui ridículo... O quanto me humilhei... Cansado... Cansado de tanto que se passou... Cansado de manter o queixo erguido em sinal de triunfo quando me derrotei meu próprio ser pela cegueira e paixão. Sinto-me caricato quando tanto se fala dos homens e da sua tendência para o egoísmo e para o egocentrismo... E a mim bate-me o reverso da medalha... Talvez seja essa a razão... Quanto mais damos... Mais nos tiram... Se nada mais temos para oferecer... Se já nem o Sol maior que escondo, meu sobeja para me irradiar com a sua magia... Nada me sobrou... Este Caos... Este Caos esta a tornar-se uma maldição demasiado pessoal para ser lançada as chamas do esquecimento... Para ser simplesmente destruída... Nutro-lhe um carinho odioso... Algo... Algo que não senti pelos escritos anteriores que terminaram os seus dias em cinzas consumidos pela voragem do fogo purificador... Neles este ritual macabro surtiu o efeito que pretendia... Mas... Mas na coragem cobarde que me assiste calo esta sensação lançando ao vento mais umas palavras do meu ser, sabendo que o Caos me consome no fogo que descreve existir em mim.

terça-feira, 30 de março de 2010

Promessas

Penso em que fazia à um ano atrás... No dilema que me consumia as horas e a razão. A culpa....  A culpa que me derretia todos os princípios mais básicos que devo obedecer. O sentir-me culpado das mentiras de alguém que sobre mim impostas vinham troando bem fundo nas emoções, esfumando qualquer hipótese de quebrar o ciclo. Cedia a lágrimas, que evito pensar em fingidas e assim passava pela vida sem possibilidade de nada fazer. Corroído pela responsabilidade de algo que em mim não fazia sentido de ser, continuando a ostentar um sorriso triste esquecido da felicidade. Omitia o sentir que em meu peito me iluminava. A pouca coisa que aquecia a frieza que meu ser padecia nesse olhar que pontualmente com o meu cruzava. Vibravam mil ecos de felicidade em minha alma no som da sua voz. Mas omitia. Calava. Consentia. Mais forte que um sentimento o peso das minhas promessas falava mais alto. Mesmo sem encontrar em mim sentido de o serem. Ou a obrigação de as cumprir... Mas cumpria... Cumpri... Calei... Menti-me... Tentei... Às vezes questiono-me sobre o que realmente são as promessas... Se merecem a força que em mim têm... Se a natureza mesquinha que geralmente torna as pessoas fúteis merece a minha Promessa.... A minha Palavra de Honra.... Se as promessas tanto são em mim, porque as mantenho mesmo quando outrem não é digno da minha verdade. Porquê? Para quê? Serei assim tão cego? Serei assim tão surdo? Porque aceito o inaceitável? Porque acredito no inacreditável? Gostava... Gostava de tentar ser diferente. Gostava de mudar. Queria ser indiferente. Queria ser dono de mim. Controlar meu ser em vez de deixar que a consciência das promessas gerissem friamente esta vida em mim.

Persisência

Acordei com fome de viver... Com sede de sorrir... Mas acordar levanta em mim o despertar para a realidade de um limite que me persegue e castra o sentir de ser e do que faço. Do quanto tento de reunir forças para fugir da fronteira para onde converge o limite que me é imposto pelo somatório dos pequenos tidos que vivêncio. Pela transparência... Pela consciência que me leva a para tudo olhar tentando escrutinar algo de diferente. Pela forma como o sol de fim de tarde me aquece transportando-me para um pôr de sol já distante que sei intimamente ser irrepetível. Pelo pairar deslumbrante de um avião que na aterragem me leva para o destino que sonho. Sonho... Esqueço-me de não me lembrar tantas vez que escuto "blue in green"... Pelas palavras... Pelas palavras que não disse... Na altura que devia... Pelas que disse... Pela impetuosidade... Pelo persistência... Pelo querer que me sufoca e exaspera. Incontido...  Incontido o peso que me vai esmagando no girar cego de uns ponteiros que parados correm contra mim. Incomportável... Incomportável a sensação que me vem ocupando e me grita o quanto as palavras não me satisfazem... Não me realizo escrevendo... Temo estar perto do fim este conjunto de ideias dispersas divergente e tantas vezes contraditórias. Temo... Temo e anseio pelo fim de vida do Caos da Vida... Mas os sinais começam a surgir... As evidencias transparecem a exaustão a cada texto que vou escrevendo sem sentido. Antes... Antes sentia conforto nas palavras... Agora... Agora... Cada palavra testemunha a insatisfação da realidade inicial que quero esquecer. Insatisfeito... Talvez... Imperfeito... Certamente... Certa é a luta que vou travando... E as palavras rememorizam em meu espírito sorrisos... Sorrisos... Tantos... Que quero olvidar... Apagar qualquer registo físico da sua existência... Mas... Mas estes textos que decidi condensar, aqui tornaram-se vivos... Sinto o vibrar das emoções que escondem... São parte de mim... Acabar... Terminar... Terminar é demasiado finito e incontornável para um cobarde emocional como este eu que vive em mim.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Paragem

Agora que neste instante paro de trabalhar o vazio apodera-se do meu ser deixando um contorno oco que me impede de desaparecer completamente. Sou iluminado por uma escuridão interior que tudo faz desvanecer transformando minhas ideias. Trabalhei onze horas e meia efectivas praticamente sem paragens... Mesmo a pausa salobra de um cigarro é consumida em trabalho.... Para quê? A dificuldade com que escrevo assusta-me. Onde outrora sentia uma identidade fluida com a escrita agora contemplo-me saltando entre lapsos de memoria. Paragens... Como se vivesse meramente entre intervalos de anestesia total onde não sei o que acontece. Inalo mas não respiro. Ouço mas não escuto... Falo mas nada digo... Olho mas não vejo... Nem um eléctrico de que me aproximei perigosamente. Não me sinto... Apenas o frio que se começa a sentir parece despertar tenuemente o desconforto alertando meu espírito para a realidade que me envolve. O despertar não surge imaculado... As pontas dos dedos gelam num torpor que me dificulta os movimentos. Estou moído. Como se um grão de café ralado em pó fino e lançado ao vento... Não tenho ideias... Não tenho nada mais no pensamento que uma questão... Que restará de mim?

Pesadelo

Amanheci embalado num pesadelo contigo. Porquê? Porque entras num sonho meu se nada existiu. Se há tanto estás afastada e raramente dizes algo. Tudo é surreal neste meu mundo irreal. Nada faz sentido. Infelizmente são os nadas que tudo me fazem sentir. São as pequenas coisas que vão tracejando o meu céu, que estimulam o meu pensamento em busca do todo que se esconde em algo insignificante. Talvez seja essa a minha verdade inglória. A procura... Inevitável... Insatisfeita... Irrequieta... Imparável... Mesmo de forma inconsciente, muitas vezes sem o querer, encontro constantemente algo. Quantas vezes  ao guiar de noite, ao ver uma luz tremula pontilhando convicta a escuridão, olho para lá dessa realidade e transporto-a para a minha própria realidade paralela, sob a forma dos sonhos que me habitam. Neste instante estou a caminho de Lisboa. À minha esquerda o céu esta carregado de uma promessa certa de chuva. À minha direita o sol acorda pleno de força marcando sua presença de forma rude nas portas da minha realidade. Esta é a consciência em que vivo. Na fronteira entre o sol e a chuva. Lá, nesse meu lugar que apenas a mim próprio permito a entrada vivo em adoração. A adoração do banal. Do vulgar. A adoração de todos estes nadas que vão fazendo todo o sentido em mim.

PS: Penso também como seria se assim não fosse... Seria feliz? Seria dono de mim? Domaria o tempo? Quem seria? Que seria? A superficialidade que marcaria os meus dias traria a vantagem de não olhar para o meu tempo como perdido e a miséria de não me reconhecer em mim.

sábado, 27 de março de 2010

Rápidos

Navego numa correnteza de palavras soltas, que me amarram aos seus desígnios. Desconheço se sigo para montante ou jusante. Estou algures na encruzilhada dos meus pensamentos, sem ser timoneiro de mim ou tão pouco ter interesse segurar o leme do meu ser. Vogo ao abandono sem querer chegar ao destino que ignoro ou a uma margem pois nos rápidos da vida é que sinto o que realmente é viver. Prefiro as ribeiras omissas paralelas e divergentes que convergem na minha ilusória realidade de todos os afluentes de mim que se escondem atrás de pensamentos que ainda não consegui atingir. A maldição de ver a penumbra profunda, negra e salvadora na luz intensa do sol matinal ou de ver o dia na noite e algo que me apraz. Alegra-me a visão diferente que guardo. Mas que posso pensar se amanha já sinto esta ideia como vivida? A insatisfação de não estagnar preenche os meus dias em ideias que sei abandonadas após escritas. Nada resta em mim que o conforto de uma ideia passada gravada no meu pensamento.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Futuro

Tento segurar o tempo com as garras figurativas das palavras pela falta que me faz. Pela saudade...  Saudade do tempo em que eu era apenas um. Do tempo que a alegria era meu apelido. Do tempo em que os sonhos eram possíveis se realizarem. Saudade de sorrir feliz. Saudade de ouvir palavras que não ouço. Saudade de ler as palavras que já não leio. O luso sentir do fado da saudade enche meu ideal. Não vivo o passado no presente mas o meu presente é oferta do passado. Tento pensar não pensar no que penso, mas invariavelmente acabo por meditar em algo passado por tornar mais dormente em mim o sentir do futuro. Não sou dono do meu futuro. Tao pouco rei do meu destino. Canto somente o meu fado em palavras nostálgicas tingidas de esperança... pintadas nas cores dos sonhos que alimento em surdina aqui nestas poucas frases que sem efeito caiem no esquecimento. Frases agrilhoadas a um mundo virtualmente binário, sem matéria... Sem corpo... Apenas alguns traços d'alma... A que ainda vai sobrando em mim.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Roubo

Nada é verdadeiramente meu. As palavras que escrevo. As ideias que tenho. Os pensamentos. Os sentimentos. As emoções. Nada tenho. Nada me pertence. Nada. O tudo que vivencio resulta de algo. Algo que exterior a mim interiorizo. Tomo como meu não o sendo. Conquisto em silencio pelos pensamentos que me ocorrem. Usurpo pela força das emoções que o contacto com tantos nadas fazem vibrar. As palavras... Essas... Quando as jogo ao mundo virtual apartam-se do meu ser. Afastam-se de um caminho comum que decidimos partilhar sem complexos num instante de intimidade . Eterno mas excessivamente finito para ser relembrado. Uma cruzada em torno de uma torre de babel colapsada em mim próprio... Nada é como foi sabendo que o foi sendo. Sensorial é tudo o que sinto em mim.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Não!

Quero?
Não quero?
Queria?
Não querendo?
Querer
(tudo o que me escapa)
Pensando!
Pensava
No que pensaria
Se não pensasse!
Pensar
(No tudo que)
Teria
Não tento!

terça-feira, 23 de março de 2010

Sabor

As palavras têm o sabor insípido do vazio qual a ultima gota pinta o fundo de um copo de pensamentos transparentes. Lembro os golos que tomei com desprendimento desprezível, remoendo mil imagens que se afastam tingidas no negro das asas de um corvo que se entrega a uma fuga grasnando impropérios. A intolerância que para com tanto que me consome faz-me ver que nem tudo tem o som do chilrear matinal. Por vezes, não raras, metálico é o soar que ressoa... Rude... Áspero... Puro... Sem ser filtrado por uma consciência que me pede contenção piedosa. Profano... Sombrio... Sincero... Sou o corvo... Não escondo... Não nego... Não evito...  Maximizo minimizando tudo o que faço. Na minha realidade, alimento meu ser na berma da estrada da vida que percorro desconhecendo o Norte.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Desculpa

O meu tempo de ontem vive agora na penumbra da culpa. Luminescência de alta frequência que me ilumina a consciência do peso insuportável da promessa quebrada. Vulgar memorizar que único se torna. Falso. Prometendo o que não podia aferir como possível. Falível na passível impossibilidade do todo que disse sabendo do possível nada. Nado no tracejado invisível das letras da palavra vergonha. Promessa... Promessas velada que levada pelo meu fraco aproveitamento do dia em minha falta de empenho. Ocupo-me em mim. Preocupo-me em manter o vicio de dedilhar com um frenesim sequioso as teclas sem o saber. Irrequieto pela incondicional condição de não ter feito o que prometi. De nada valem minhas palavras que o peso da sua medida mal tomada toma numa balança que nada mais mede que a questionável incerteza que julguei certa. Consumo os meus pensamentos na demanda de um elixir salvador do veneno infame que percorre meu ser. Inflado pela sombra de quem já fui, repenso constantemente sem saber sequer se em algo mais quero pensar. Sem desculpa, a culpa que vibra em fase oposta as ideias, matando-as à nascença enegrece a noite com o brilho vingativo de um sol rancoroso. Crença minha de culpar o tempo sem ter tempo. Sem perdão. Desculpa-me Eu... Eu Mesmo falhei em mim!

domingo, 21 de março de 2010

Arte

Não sou artista. Reconheço que me falta a perspectiva e o sentido estético. Ausente de mim está a capacidade suprema de conseguir superar a vulgaridade. A nobreza da arte em mim nunca fez sentir sua sombra luminosa. Mas hoje o escopro com que me tento esculpir em cada palavra esta totalmente cego. Esta ferramenta que mais utilizo para entalhar as formas disformes que descrevo encontra-se romba. Tento afia-la vezes incontáveis no esmerilador da minha critica feroz sem sucesso. A pedra ambicionado o ferimento revelador jaz quieta na frieza do fogo rubro da ânsia que a consome incessantemente. O ardor que dilacera meu corpo eleva-me a vontade a uma quietude mansa que ambiciona não ser perturbada. Bem faço incidir a punção no jugo umbroso do martelo consciente de tudo o que penso e sonho. Mas a minha férrea vontade resvala na grosseira pedra que de mim tenho para esculpir. Gosto... Gostava... Gostava de ser vento e esculpir-me naturalmente a mim próprio com a ajuda de uma pontual agua que surgisse. Transitar livre pelas formas ilusórias que busco em mim mudando-me a cada nortada... Sem pressas... Vento de mim que nao toma forma nem ganha consistência. Aprisionado como eu... A todos os sonhos que quero ver jamais perdidos em mim.

Praia

O sol vive fluido refractado pelo orvalho que cobre com um manto verde esta terra de ninguém. Entre o o sol e as nuvens falta-me a evidente clarividência. Estou disperso pelos quatro cantos deste mundo que ausente de mim esta numa caixa que ressoa de ecos a vazio. Talvez seja a abstracção febril que percorre o meu corpo ou os tremores do frio que sinto esbarrar na minha pele tépida que condicionam a minha concentração. Não sei... A exaustão intensa deixa-me apático. Cada letra, antes fluida, fica presa em mim, entre barras de uma condição de passividade que desprezo. Penso... Penso para comigo como gostaria de descer a praia do meu ser. Sentir o sol que la vive. Tocar na superfície das ondas de cada pensamento antes destas desfalecerem na areia. Ouvir as memorias de cada gotícula inconsciente que delas se ergue desafiando-me a consciência. Ou aproximar-me o suficiente para ouvir o cântico desprendido do rolar de cada pedra escondendo dentro de si as palavras que insistem em fugir... Ou conter eternamente o embate de cada grão de mim em mim quando levados pela brisa áspera que por vezes toma conta de quem sou. Mas... Hoje não. Hoje remeto-me a uma quietude que trocista me irrita. Hoje não desço as escadas para a praia que habita em mim.

sábado, 20 de março de 2010

Estatística

Variável... Mesmo mudo tudo muda. Mudam as palavras. As pessoas. Equaciono... Tudo. Nunca matematicamente pois a ciência corre errática nas veias do meu pensamento. Será? Serei assim tão isento? Serei assim tão linear? Tao certo? Num somatório de valores dispersos posso minimizar qualquer ocorrência, mostrando valores correctos partindo dos pressupostos errados. Resultados correctamente falsos... Ou falsamente correctos... A visão com que olho para  um valor determina a fiabilidade deste. Imagino... Trabalho como operário... Faço apenas duas peças em oito horas de trabalho, sem qualquer defeito. Um colega faz oito em oito horas em que duas são defeituosas... Resultado... Eu sou bom porque nenhuma peça por mim realizada tem defeitos? Ou sou um mau funcionário porque pouco produzo? Estatisticamente tenho 100% de qualidade mas apenas produzo 25% que outro colega... A questão... A questão resume-se que tudo depende da forma como quisermos ver os resultados... A matemática tem destas coisas... Os números... Os objectos... As formas... As cores... Tudo... Tudo o que vejo será assim tão diferente? Serei assim tão rigoroso? Tudo depende da forma como vou olhar... Depende de tudo o que sinto. Depende do cansaço... Depende de mim. Fazendo uma associação lógica directa isso significa que pretendo ver cada pequeno nada segundo os meus olhos evitando a globalizar. Estatística? Os números são meus! Eu... eu sou a soma e a subtracção... Eu divido. Eu multiplico. Eu cruelmente manipulo toda a informação. A lógica? A lógica é um engano... A realidade é somente minha! A razão? A razão é nula! Eu tudo condenso numa arrogância ímpia. Destruo! Crio! Recrio! Verdade? Ficção? Realidade? Ilusão? Que escrevo? Que digo? Que penso? Quem sou? Serei amanha o mesmo que hoje? Se sábado tivesse escrito que palavras teriam arrombado o meu ser? Tendo escrito... Escreveria hoje? Escolheria este tema? Que me inundaria? Que palavras seriam transpostas? Que caminho seguiria?  Cada dia que passa encontro mais questões em mim.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Consciência III

O cansaço ensurdece em mim a capacidade de estabelecer diálogos com o vento. Não sinto a disposição de estabelecer a dança aritmética que ele procura. A consciência que tudo contorna parece trôpega aconchegada numa dormência imprópria,  tropeçando desajeitadamente em si própria. Nem o parecer, tantas vezes salvador, da memoria corre em meu encalço por se encontrar ébria. O fantasma perpetuo das memorias que tanto agita o meu espírito desfalece na exaustão que tudo dilui. Renasceu a consciência do ser em mim.

Passadas

O dia acorda vestido de invernia plena após as tréguas dadas pelo sol frio. A chuva volta a fazer a sua aparição qual um sentimento que procuro esconder enterrando-o algures no nenhures do meu ser. Tudo se eleva. Tudo se cala. A estrada molhada reflecte o chilrear matinal da passarada. O cheiro a cidade que tudo impregna, parece carregar em si o odor de uma floresta virgem. As minhas passadas ecoam com destino definido mas em sentido oposto a vontade do meu ser. Travo o clima idílico no ruído que crio, resultante de uma falta de capacidade natural de voar invejando o grasnar de uma gaivota aparentemente perdida. Penso... Por vezes nada vejo... Como se tudo me fosse familiar. Nem sei quantas vezes já percorri aquela rua. Tenho memórias. Tantas... Não as peso. Não as meço. Não contabilizo ou enumero. Acordo cansado por sonhar tanto que guardo de ti em mim.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ler

Há muito que não lia realmente Palavras. Talvez os olhos da minha mente tenha sido acometidos de uma cegueira que presumo passageira. Fui... Tocado.. Fui muito para alem do seu verdadeiro significado. Ouvi o significante. A realidade. Toquei sentimentos. Tacteei em letras emoções de alguém no reflexo criado nas minhas. Já não sabia o que era sentir os olhos húmidos de tudo o julgava esquecido nos confins de mim. Esquecido do que e sentir-me pequenino. Criança. Adulto. Idosos. Não li palavras. saboreei a nostalgia  soprado num vento tingindo por folhas plenas de sentimentos.  Senti o odor da terra viva de querer após a chuvada de verão diluído na atmosfera que pesada em nada converte. Tirei a venda. Tirei a máscara.

canto

A liberdade de mim foge, presa no arame farpado das vedações pelo tempo erguidas. Meu viver é cronometrado. Canto na escrita sonhos presos em mim..

terça-feira, 16 de março de 2010

Consciência

Consumo o frio matinal que me é imposto a contrariado. Este manto gélido que tudo envolve desperta-me para a realidade que não deixo de pensar em tudo o que não me quero lembrar. Gostava de me conseguir olvidar de tudo o que não quero que assombre o meu espírito. Ter uma espécie de mecanismo filtrador directamente dependente do meu estado emocional. Realizar constantemente triagem selectiva de ideias, evitando as que não queria. Neste momento penso invadido pela raiva. Sinto-me parasitado, como um mero hospedeiro de uma espécie parasitaria que me sorve as ideias e apodera-se do trabalho por mim realizado. Tento engolir o meu orgulho em garfadas bem guarnecidas, deglutindo sem praticamente o mastigar conseguindo dessa forma contornar o travo intenso a azedo que me inunda a boca de mil sensações de ira. Não quero pensar. Não quero consciencializar a natureza cobarde de tudo o que sobeja em mim. Da falta que me faz explodir. Ontem... Ontem estive perto de rebentar. Consegui conter-me recorrendo a todas as forças. Mordendo a língua para evitar os comentário hostis que me preenchiam a cada palavra que ouvia. Nestas alturas gostava de ser inconsciente. Mas hoje a consciência acorda a raiva apunhalando de morte a alegria que vive em mim.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Preso

Se me apetece escrever? Muito! Mas inexoravelmente termina o meu dia com a nebulosidade macabra do céu. O sol é enclausurado na cinzenta prisão que tudo cerca. Rendo-me ao meu próprio cerco. Desenvolvo mentalmente um paralelismo sombrio reconheço. Evito a tentação óbvia de assumir uma sintonia entre o firmamento e o pensamento mas não deixo de questionar essa possibilidade latente. Orgulho talvez... Ou um condicionalismo exacerbado que me condiciona e aparta do real. Transcrevo o que penso. Tão somente a vontade de deambular num caminho que terminará no ultimo paragrafo. Acalmo. Calo. Consinto. Consinto as formas de raiva que me pedem ser expostas negando o seu desejo. Mas... A realidade afigura-se demasiado opaca para ser visível. Neste momento questiono o inquestionável. Travo a escrita de uma mensagem substancialmente mais ríspida mas consideravelmente mais sincera. Limito-me a referir que não estou em condições de falar. Adio o que se me perfila como inadiável. A resposta que recebo trás-me à mente a imagem nítida de uma marca... ''his master's voice''... Tout court... Tao simples... tão simples seria minha resposta.... '' obviamente demito-me''... Mas... Contenho as palavras. Cerro os dentes. Sinto uma inundado por fel... A palestra da minha insatisfação fica em mim. Tranco-a. Sem chaves ou correntes agrilhoada ao meu ser fica, dormente mas, engatilhada... Pronta a disparar. Arrasadora. O céu escurece na entrada da noite. O jogo das sombra torna-se o jogo das luzes. Julgo... Julgo o jugo deste jogo que me enquadra os dias e sistematiza ideias. Tabeladas. Predefinidas por uma razão que me exige o tudo que canta a emoção. Coro. Nada me faz sentido no que faço a não ser o orgulho que me dirige no sentido de não falhar. Desprezo o erro. Considero a hipótese deste acontecimento como possível mas evitável... Mas o que mais me enoja é a fraqueza hipócrita de nada ter sido feito. a minha questão neste momento torna-se clara... Transparente... Prefeita... Ridícula... Estou entre a espada de nada poder fazer e a parede de um orgulho que não me permite a fuga. Sem me mexer... Sufoco... sufoco perante o antagonismo que me rodeia... Que me tolda a visão na cegueira dos outros... Abrupta surdez que devassa os meus princípios. A arrogância intransigente que me afoga o olfacto.... Os meus sentidos estão dispersos... Entregues a si na consciência de mim.

Assinado

Contenho a raiva evitando escrever. As palavras não são simples quando o que pensamos é complexo. O demérito irrita-me. A usurpação de ideias e trabalho por mim realizado perturba-me para la do sustentável. Já não consigo sorrir. Cansa-me... Consome-me... Corroí-me... Torna-se penoso aceitar e compreender. Deixo a capacidade de defender o que crio. Prefiro soltar a corda. Noutros tempos argumentava numa lógica fria, rebatendo ponto a ponto todas as alterações que fossem sugeridas. Teimosia? Hum... Não... Talvez persistência por considerar como validos todos os itens que proponho. Tudo o que faço profissionalmente é o resultado de uma introspecção e analise profunda. Tudo o que proponho é importante. Pode não ser imprescindível mas tem impacto, conduz a uma melhoria... Por isso a insistência racional. O argumentário complexo alicerçado em exemplos... Em números... Em factos... Separando sempre o essencial do acessório. Tento abstrair o pensamento evitando pensar no evidente. Deixei de ter prazer no que faço. Deixei de sentir o sabor do desafio. Cedo. Cedo inexoravelmente cedo. Sem protestar ou defender. Lanço sobre o ringue a toalha rendido. Calo-me. Este projecto já não é meu. Na realidade nunca foi mas... Mas esforcei-me por interiorizar... Encontrar algo que me aguçasse o engenho. Qualquer coisa que me fizesse acreditar. Hoje... Hoje saio cabisbaixo. Derrotado. Hasteei a bandeira branca, numa rendição incondicional. Assinado foi o tratado. Resta-me esperar que a consciência regresse a este eu que nada encontra em si.

sábado, 13 de março de 2010

Existirá algum saber nas palavras. Serão estas assim tão importantes? Conseguirei alguma vez ver realmente tudo o que vejo e sinto. O pensar não me condicionará? Que escrevo? Que penso? Se afirmo que escrevo sem pensar pois as palavras fluem de uma origem desconhecida para o papel, não estarei a fugir a realidade... As palavras para serem escritas seja da forma que forem, não são elas resultado de um mecanismo interno. Uma instrução? Uma ordem? Faço pairar a dúvida sobre mim... Não será tudo o que escrevo o resultado de algo inicialmente puro que foi filtrado. Terei eu a capacidade para num no instante insignificante de um nano-segundo, analisar a palavra que se solta de mim, processa-la e encontrar um sinonimo que se adapte melhor, alterando a veracidade subjacente que almejo? E esse infinitésimo de segundo? Que será? Não pode ser consciência pois não me perceptível. Será ele inconsciente? A origem? A verdade que a todos escapa? Serei Eu? Será o animal que em todos vive? Será o Ser?  A anima? Será o pensamento propriamente dito?  A alma mater? As questões percorrem-me. Que tenho escrito... O que quero? Ou o que me e ordenado? O que sinto? Ou penso? Ou o que me e permitido consciencializar? O viver somente levanta questões em mim.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Divagar

Deixo divagar livremente as palavras. Prendo-me no desejo de não discernir um objectivo escrevendo pelo simples acto da escrita em si. Plena. Presente. Presente tenho que não escrevo. Não sei escrever. Não posso considerar o que faço como escrita. As palavras têm vida... Alma... Leio nas palavras dos outros a "anima" que falta às minhas. Um sabor ocre de uma vitimização premeditada, como uma carta anónima sem remetente nem destinatário esquecida numa das múltiplas gavetas do viver... Triste plagio de um ensaio sobre uma cegueira própria auto infligida. Magia... Magia leio no que não sendo "bem escrito" tem a rima da lua cheia numa noite de verão.  Nessas simples palavras, muitas vezes abreviadas vejo o que verdadeiramente merece a pena... O sentido do viver proclamado. Leio sorrisos de criança em lágrimas maternais feitos. A abnegação. A elevação máxima do ser. A "Matria"... O sentido de tudo dar num olhar nada mais tendo para oferecer. O receber de um sorriso envolto num abraço carregado de inocência infantil. O não escrever sobre isso pois as maiores emoções não se descrevem ou decompõem em meras letras formando palavras. Sentem-se. São Tatoadas no nosso coração... Gravadas no nosso ser... Memorizamos sem nunca as esquecer pois impossível se torna quando essa vida é o motivo da nossa. Nada... Sobre nada escrevo. Epifania... Fatal... Tudo me falta... Falta em mim o ser que existe vendado por não saber o que realmente é viver.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Inverno

O inverno tarda em ceder o ceptro a si confiado num solstício já passado afirmando a sua convicção inundando o dia presente num sopro gélido. Agreste vontade sua que tudo banha de uma morbidez tremula. Descrente no conceito de mérito renova forças em cada rajada com que faz impor o seu querer numa cegueira indiferente aos meus desejos de comum mortal. Não guardo saudades do frio... Detesto a sua presença. Sinto no entanto um carinho especial pela chuva e a forma como guarda em si memorias ocultas... A sensação que me invade na caricia dada de forma desinteressada... O olor puro da verdade que a terra ressequida encerra que reinventado é após uma chuvada... Libertando os reflexos do seu (meu?) viver após a purificação dado num baptismo que se abate sobre a secura ímpia. A sensação de peso sobre os meus ombros quando o céu denso se encontra próximo da vertigem da bênção, contendo os seus pregoes ate ao ultimo instante, para em êxtase os precipitar... O caminhar a chuva... Ouvir o som abafado da chuva a tocar a areia... Tanto... Tanta é a inspiração que a chuva expira em mim...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ser

Ser ou não ser, eis a questão. Será mais nobre em espírito viver. Sofrendo os golpes e as flechadas da afrontosa sorte. Ou armas tomar contra um mar de penas.

Ser pensante que me parasita e inquieta o espírito. Procuro a fuga na liberdade à sua ditadura compulsiva. Tomo como armas a cobardia lógica e procuro uma interrupção na vedação intransponível do pensamento. Tacteio de olhos fechados no obscurantismo luminoso de mil ideias incendiando a negação em toda a dimensão do meu ser. Será melhor a fuga consciente ao pensamento ou manter-me vertical marcando o passo num compasso de ideias sem fim? Mercerá a pena? Não lendo o que já do meu ser transpirou corro o risco da contradição profana. Pronuncia inaudível de duvida, que ingrata demanda que me entregue a sua misericórdia. Nefasta. Propenso ao erro cruel. Humano. Contradigo o que digo não o querendo dizer. Afirmando o quanto me atrai a contradição. A vaga ideia. Mas a pureza na mesma no momento que me pede negando a sua presença em mim. 

terça-feira, 9 de março de 2010

Divago

O frio faz discursos improváveis ensurdecido pelos ecos das passadas sem vida de caminhos já feitos. Ouve-se o vento cantar em uníssono, expressando tantas estórias já com historia. Esgrimam ambos sem parar tudo o que lhes confiado está a ser esquecido na ubiquidade perene da limitação espaço temporal. Linha mediana que tudo separa. Equador irreal onde vivo... Algures entre um norte e um sul indefinidos num mapa mal cartografado. Erro meu... Fraca  é a arte do desenho que de mim foge nas entrelinhas de uma folha virtual branca não pautada. Talvez seja esse o erro... Procuro escrever sem orientação... Sem sol... Sem tempo... Sem norte... Agito a poeira das memorias ou emoções na movimentação constante dos meus dedos em teclas... Sinto profundamente em mim cada pessoa que exerço sobre cada tecla... Uma forma diferente de acupunctura. Em cada letra encontro uma agulha de comprimento e calibre diferente... Não as escolho... Cegamente vou cravando-as em mim... Por vezes lentamente com brandura e calma... Outras com violência e raiva. Mas... Mas todas as sinto. Todas em mim deixam a sua marca indelével. Indesmentível o quanto as palavras me afectam. O quanto me fazem viver... Sentir... Existir... Tanto. O gradual ímpeto com o qual fazendo desfilar as emoções. Difícil escrever. O céu não tem essa cor. Nem a lua o brilho ou o sol o calor. Nelas tudo tenho mesmo o que não vou tendo. O nada que nada falta me faz tudo fazendo na sua ausência. Divago... Reconheço. Talvez seja do cansaço... Talvez seja do martelar constante das palavras das pessoas que me impede de escutar o que em mim quero ouvir. Talvez seja o dia que tarda em ser noite.

44

Há muito que não me lembrava de sonhos vividos na dormente inconsciência a que na noite me entrego. Antes o sonho em si era uma presença constante todas as vezes que cerrava os olhos e me entregava a escuridão do sentir. Desconheço quantos foram... Os motivos das suas investidas em mim muitas vezes surreais ou ate mesmo psicotrópicas plenamente multicolores e assumidamente reais, palpáveis... Vivenciei tantas situações bizarras que me cheguei a assustar com o per recreativo da mente quando se entrega a utilização plena de todas as suas capacidades e recursos. Mas este sonho foi diferente. Não tinha imagens... Não vivi situações absurdas... Tao pouco me vi numa posição de narrador... Nada me aconteceu... Nada. Nada mais que um numero que persistiu sobre um fundo negro da ausência de consciência. Um único numero. O numero 44! 44? Porque este numero? Que motivo? Que significa? Que esteve na base do seu surgimento em mim? 44... Acordei perseguido pela evidencia que algo significa... Significou... Ou significara... Ou não...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Da Mulher

Dia da Mulher... Soa-me a ridículo a existência de uma data marcada num calendário... Mesquinho. Intencional. Depreciativo... Minimizante e redutor. Como se alguém quisesse justificar as suas falhas perante as Mulheres. A hipocrisia dos sorrisos e das prendas embrulhadas culminados num jantar bastassem para compensar os restantes 364 dias. Como se um misero dia conseguisse apagar os registos de todas as injustiças. A memória é curta... O dia da Mulher já tem 100... É hoje comemorado o centenário... Neste dia de 8 de Março do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica para reivindicarem direitos. Quais? A redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Sim... De 16 para 10 horas! Não é uma gralha! Pior... Estas operárias nas suas 16 horas recebiam menos de um terço do salário de um homem!  Corolário... Foram fechadas na fábrica...  Entretanto deflagrou  um incêndio no interior e cerca de 130 Mulheres morreram queimadas. Apenas em 1910 numa conferência internacional de Mulheres realizada na Dinamarca foi decidido, em homenagem àquelas Mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". Justo? Pela barbárie insana que aconteceu pode parecer justo... Mas na minha opinião foi pouco!... É pouco! Porque penso assim?... Bem... As Mulheres sempre foram discriminadas... Na religião o inicio da "queda" da Humanidade no paraíso foi provocado pela Mulher... As Mulheres sempre foram vistas como pecaminosas... Um homem traia a Mulher levava chicotadas... A Mulher era lapidada... Acesso à educação ou formação superior só no século XIX foi permitida... E em faculdades de e para Mulheres e cursos direccionados para as necessidades femininas da altura... E as Mulheres que frequentavam as faculdades eram mal vistas... Em Portugal a igualdade entre o homem e a Mulher apenas em 1822 foi escrita... Direito de voto? Só no século XX... Para o próprio acto de viajar a Mulher tinha de obter a permissão escrita do homem como se um objecto se tratasse... Na politica? Quantas Mulheres ocuparam cargos políticos de relevo nestes últimos anos? Qual o rácio entre homens e Mulheres na assembleia da republica? Porque motivo a percentagem de Mulheres nas listas eleitorais tem de ser cumprido e encontra-se tabelado? Porque razão uma Mulher que assume a sua sexualidade de forma aberta tendo vários parceiros é "puta" e o homem é um "garanhão"? A discriminação... Perseguição... A violência infame imperdoável... os Abusos... As criticas sempre que fogem ao padronizado... A falta de protecção..  Tantas questões... Tantas mais situações... Tanta injustiça... Cegueira... Mesquinhez... Crime Injuria... Opressão... Tanto... Por vezes tenho vergonha do género que sou... Não por qualquer questão de dúvida relativa à sexualidade... Mas por reconhecer que tudo o que vejo como violento e violentador da condição da Mulher... Quem fez de mim quem sou o devo a uma Mulher. Em meu peito jamais terei a minha divida paga... Mesmo sabendo que na sua maternal consciência tudo ficou saldado na primeira troca de olhares... Apenas... Posso pedir desculpa a Todas as Mulheres por tudo o que lhes foi feito ao longo dos anos mesmo sabendo que é insuficiente.

A cada Mulher que se cruze eventualmente com este texto e conjugando segunda pessoa digo com o carinho sentido que dizia à minha mãe sempre que fazia algo menos bem;

Desculpa...

domingo, 7 de março de 2010

Amigo



Acordei entre o deve e o haver de palavras que havendo se encontram devidas. Aqui apenas falo de instantes. Momentos menos bons em que o pensamento toca em tudo o que pretende evitar aparentemente esquecido de ti. Da divida pessoal imensa tenho para contigo. De todas as vezes que buscas os meus olhos no teu desejo puro de me fazer feliz. Nos olhares que trocas comigo tentas tocar o meu ser sem qualquer outra intenção que apenas essa. Simples. Verdadeira. Consegues ver lágrimas nos meus olhos que, secos pelo orgulho, recusam a sua salina presença. Lês-me todas as palavras que encerro em mim sem abrir a capa coreácea que me protege. Ouves dos meus lábios mudos as palavras que calo. Deitas a tua cabeça nas minhas pernas exalando um suspiro longo de compreensão sem me pedires qualquer carinho ou atenção. Vibras todo teu corpo perante o meu sorriso a ti dirigido. Saltas, pulas, arremetes teu corpo contra o meu quando brinco contigo. Ou como puxas a minha mão para acarinhar no teu corpo a minha melancolia, sabendo que isso me vai fazer sorrir. Tantas historias partilhamos. Acompanhas-me. Amas-me incondicionalmente. Mais que um cão ou um amigo és o guardador dos meus sonhos.

sábado, 6 de março de 2010

Sorrisos

A dança arritmica do mar faz-me questionar se as minhas palavras ao serem lidas não serão mal interpretadas. Pela memoria limitada do passado já (d)escrito, penso no que ja escrevi. Penso em como lidas fora do contexto podem conduzir a uma interpretação errónea. São palavras. Apenas palavras, que nesse instante fizeram exigir a sua presença de forma draconiana... Ditatorial... Pungente... Mas em si contendo tudo o que sentia nesse preciso momento. Por isso não as leio ou tão pouco as revejo. Obrigado seria a possivelmente reescrever tudo. Adicionar parágrafos, alterar a ordem frásica, corrigir erros colocar pontuação... Mas... Mas ao fazê-lo estaria a destruir a beleza intrínseca que busco nunca encontrando. Tudo pode ser mudado. Nada é real ate ao momento que é tocado. Tudo e verdadeiro ate ser falso... Assim são as minhas palavras... Verdadeira nessa fracção de segundo, pois nesse nano instante, sem o auxilio do raciocínio ou travão mental, limitei-me a soltar o que sentia ou que pensava ou queria. Somente isso. Complicado? Talvez. Mas essa e a mais simples verdade. Nesse momento essa palavra atingiu o meu pensamento. Tantas são as palavras que a escolha de uma única é elevada em mim a uma sacralidade pura. Se o que escrevo é triste? Melancólico? Depressivo? Talvez... mas eu escrevo apenas sobre as tristezas que me invadem, pois os bons momentos guardo-os nos sorrisos que não esqueço.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Forçada

Encontro uma analogia rara entre as estradas enlutadas de trânsito e o meu pensamento ao fim de tarde de mais uma semana devorada por obrigações laborais. Sem fuga possível tudo afunila num mesmo ponto, esbarrando na indiferença subtil de um congestionamento de odor a cansaço. As palavras não fluem com a clarividência habitualmente perene. Sinto-as lentas... Como se seguissem uma trajectória em camera lenta... Vistas frame a frame... Com a transição entre cada uma a roçar a eternidade finita da paciência. O stress acumulado de uma semana começa agora a libertar-se lentamente... Sendo apenas possível medi-lo com uma ampulheta que conta granulo a granulo o tempo impaciente em seguir a sua viagem para sempre inacabada. Agarro todas as hipóteses convicto que não me sobram forcas. O temor assume o seu rosto... Este texto corre o risco de se tornar a teimosa última folha de uma árvore, amarelada pela invernia, que insiste, contra tudo, manter a árvore de nudez incompleta. Não sei se este texto tem um fim... Tao pouco me lembro do inicio. Sem saber o inicio desconhecendo o fim, este texto, numa rima forçada lembra o ser que guardo em mim.

Sopro

Olho para poente onde no horizonte longínquo observo velas erguidas, enfoladas pelo vendaval de palavras que sopro sem receio. Ergo vagas promovendo a ondulação que, numa superfície anteriormente imperturbada, surge agora pleno de um troar fulminante que desejava antecipado. Embato na areia desprotegida sem contemplações numa ode de vontade a deriva acumulada. Rasgo a quietude imperturbada do areal extenso em vagas sucessivas e impiedosas, arrancando cada grão ao chão inerte que formam.Transporto sem hesitações tudo em mim numa convulsão apocalíptica. Tudo se funde, tudo se une, sem limites, separações ou estado físico algures num ponto triplo onde tudo existe. Onde sou um mar pleno... Onde cada vaga é uma emoção... Cada sopro um pensamento... Cada grão um fragmento de mim.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Confesso

Escuto sons escorridos de tons sem magia de uma cascata que seca corre livre de um rio imaginário. Precipita-se de braços abertos para uma queda apaixonada no vazio ermo, conhecendo das vidas passadas a realidade do seu destino inatingível.  Rumores distantes em surdina abafada vagueiam parados no tempo quando o tempo me dava alento. Sinto em mim que a escrita não me concede a graça do descanso que nela tanto almejo. Prova de fé solitária marcada a fogo em cada letra, que escrita de mim, gravada é em meu ser num incandescente ardor. Dialogo impossível de um narrador sem ouvintes. nos monólogos partilhados entre mim e minha consciência noto como as minhas palavras se tornaram agrestes. Inóspitas. Não leio o que para trás das costas lancei ao mundo. Tal como o pano de nevoeiro cerrado que amanheceu sobre o mundo assim estão os meus textos com a raiva que me inunda a consciência. Relembro vagamente palavras de paixão esperança e desilusão sentidas pelo desencontro com os sonhos. O que mais queria surgia difuso qual o sol que pontualmente bafeja o dia com uma vaga de luz apaziguadora e calorosa. Vejo-me como uma nuvem passageira... Demasiado longe do espaço dos sonhos... Demasiado longe da terra da realidade... . Por vezes e me dada a ilusão de tocar na terra... Saborear as copas das árvores verdes de uma esperança fugidia... Apenas para o vento do destino me apartar novamente do instante sagrado concedido. Por vezes espraiado pelo infinito, diluído num céu excessivamente vasto para concentrar a densidade das minhas emoções. Outras de cinzento profundo carregando, de negro tingido, trovejante mil raios de raiva inabalável. Vivendo numa equidistância de tudo o que quero que se funda na entidade única da realidade sonhada. "Não sonhes" sonho... "não penses" penso... "não acredites" acredito... Acredito... Acredito no que não creio jamais ver realizado. Acedido... Vou acreditando... Nas minhas palavras vejo um pouco da mascara bem como um pouco do Eu mesmo... Um pouco do todo que sou que quero ser e de quem não sou. Pergunto-me quem escreve... Serei Eu Mesmo?... Será a mascara?... Será o ser quem sou resultante da confluência de ambos?. Quantos Eus guardo em mim escondidos cada um com o seu querer e o seu ser? Qual a distancia que existe entre ambos? Qual o mais importante? Será a mascara algo que faz de mim quem não sou ou a manifestação de quem eu quero ser não sendo? Confuso. Tudo em mim vive por si em mim numa encruzilhada de querelas constantes e ascendentes irrequietos. Não sei ser quem sou. Perdido em divagações de mil caminhos que me impelem o querer a seguir os que não existem sento-me a ouvir os murmúrios do vento a sombra de uma ilusão só minha que ouso partilhar em palavras com a ambição perdida dos sonhos contidos em mim. 

quarta-feira, 3 de março de 2010

Números

O que quero? Que pretendo? Que me espera? Terei eu uma dimensão para alem da numérica. Terei? Serei? Serei mais que uma garantia de que a partida os indicadores ou os objectivos são atingidos? Começo a achar-me um fiel depositário dos números. Somente. Sem vontade ou querer. A evidencia das capacidades e competências resumidas na gratidão falsa da palmadinha das costas do "fizemos um bom trabalho!", quando na realidade Eu fiz um bom trabalho. Olho para números. Imponho a vontade dos outros através da "pressão alta" positiva constante, intercalada com pontuais acessos de ira. Atinjo números. Leio números. Antecipo números. Penso em números. Associando de forma simplista e minimizante a lógica de Descartes sou um numero. Confirma-se assim quem sou. Um numero. Bestial por atingir tudo o que me exigem com mérito e distinção. Temo a terminologia besta pela possibilidade de falhar, facto este tornado real, quase palpável por tudo me ser solicitado. Todos me reconhecem competências e a capacidade de com pouco atingir muito. Maximizar resultados minimizando necessidades. Tomo os objectivos como algo de pessoal. Intimo. Desafio pessoal que estabeleço comigo mesmo, mais que com ou outros ou com algo. Tento analisar de forma calculista todas as variáveis que de uma forma negativa podem ter impacto na meta a que me remeto, revejo todas as situações, recrio mentalmente todos os cenários, penso em estratégias, alternativas. Para quê? Para a cegueira numérica triunfar? Para que cada vez mais o factor humano seja retirado da equação? Para mais palmadinhas? Para me ver como realmente sou? Para não ser reconhecido na mescla padronizada das casa decimais? Para aceitar a cobardia submissa de algarismos que nada mais dizem que o valor a eles associado por outros. Para nada. Para o nada de mim nada dizer do tudo o que deixei de ver em mim.

terça-feira, 2 de março de 2010

Decisão

Navego num mar alterado de escolhas onde cada vaga diante da embarcação minha vida são decisões. Oceanos intermináveis de objectivos indefinidos com rotas improváveis e consequências imprevisíveis. Não e a escolha ou o vazio motivado pela ausência de certezas no futuro que me fazem recolher as velas do viver pois são todos os instantes atravessados que me permitem ser quem sou. No rumo da vida por mim traçado as possibilidades são todas possíveis numa continua redundância textual pontualmente premeditada e bem definida. Todo pode ocorrer mesmo o impossível ou irreal mas há muito que deixei de ter receio. Este termo foi evaporado à muito da listagem das prováveis causas para a calmaria espírito ficar alterado por este tipo de tormenta pois tantas vezes tomei o lugar do sol num lunar esforço para me reerguer. O pavor do indefinido foge a frieza racional com que embarco nas derivas que se deparam no mar da vida que vivo. A quilha da embarcação de quem sou já rasgou muita ondulação bem mais forte que a que se avizinha. Reconheço que por vezes encalhei em culpa própria pois a rota não terá sido bem traçada por mim. Humana condição penso. Toldada a visão de querer ambicionar conquistar o que me falta faz. Os erros de calculo fazem parte da Grande Viagem trazendo mais sabor ao sentido de viver em cada vaga que, em ode triunfal a que o tamanho obriga, tenta o adornar do meu ser ou rasgar as velas da coragem. Tantas tempestades já cruzei. Tantas... Tantas viagens ingratas conheci. Enfrentei sempre de queixo erguido os piores momentos em que dobrei o cabo da boa esperança. Enfrentei mil adamastores. Ganhei experiência concentrada de saber.Ganhei um pouco mais de mim!

Juiz

Acordo pálido do rubor frio que preenche a minha face. Constato a evidencia categórica do que me recusava aceitar assumir como verdade. Ceguei. Perdi de vista o que realmente considero importante e que enalteço em mim de forma tão vigorosa. Exercendo um ensaio redundante de cólera constante, vociferando contra tudo e contra todos, sem pejo ou tréguas, a minha maneira de ver. Tornei-me em sede própria simultaneamente  legislador investigador procurador juiz e júri. Sem contemplações em julgamento sumario sem o direito de defesa condeno algo apenas para dar uma aparente legalidade, quando à partida com o carimbo de culpado é marcado sem que a culpa tenha transparecido diante de mim. Elevo-me a condição auto-proclamada de pelotão de fuzilamento, descarregando furiosamente frases num desejo incontrolável. Mudo... Disparo ainda intencionalmente uma ultima palavra de misericordiosa vã como se pretendesse certificar-me da minha obscena vitoria. Carrasco. Sinistro. Cruel. Arrogante. Distante. Distante do caminho de rigor e isenção que por mim julgava ter traçado em promessas já feitas. Incoerente me sinto em mim.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Xadrez

Um peão. Um mero peão no tabuleiro de xadrez dos interesses de outros. Apenas isso. Jogado com o desdém do valor ausente que nunca lhe será dissociado. Baixo o olhar para o rendilhado apático da calçada procurando vislumbrar na intrincada distrofia que aparenta uma simetria que reconheço à partida ausente. Presente fica a certeza da ausência de ser jogado segundo as regras que no jogo urgem serem obedecidas. Nas mãos do jogador vejo a falta de pejo em sacrificar qualquer um dos seus aliados no tabuleiro das suas ambições em números quantificadas... Numero. Objectivo... Objectivo difuso, diluído num jogo maior que tudo envenena. Sinto a real o perigo do sacrifício das torres (verticalidade e a integridade), dos bispos (fé e os princípios) cavalos (justiça e o rigor) a rainha (seu próprio ser) em nome de um rei (resultado) que tudo exige. Quanto a mim... Uma peça de valor insignificante e sem vontade. A primeira movimentação esta feita... Novo jogo começa! Lançado estou num jogo que nada vale em mim.

Irae

Fechado está o meu céu carregado de injustiças acumuladas em tons de cinzento escuro. Em meu ser baixo ainda mais a gradação aos tons soturnos com a raiva que me assombra o espírito irrequieto. Imploro pela chuva. Pela tempestade força dez que conjuro com a intensidade de todos os ventos nela concentrada em mim. Não me corre sangue... Sinto mercúrio em efervescência a percorrer cada veia cada célula em meu corpo. Ardor! Ardor imenso... Puro... Mesmo com frio transpiro... Raiva... Raiva pura. Destilada mil vezes após as mil anteriores! Sem mais. Nada mais! Sinto energia suficiente para destruir mil universos. Engolir mil milhões de sois de uma só inspiração... Mas mesmo assim reconheço que tal não me faria arrefecer o temperamento. Consumiria mil buracos negros de dimensão inqualificável... Tudo arraso. Como se tivesse num infinitésimo de segundo tivesse sido arrastado para um ponto de inflexão com queda abrupta vertical. Total... Para o menos infinito do mais infinito de tudo o que posso sentir em mim!

Vejo a agua que corre rumo a um destino incerto pela mão da gravidade. Simples e a sua demanda pela conquista do destino a ela reservado na nascente. Invejo. Invejo muito a natureza simples e fira das coisas que observo, em antagonismo ao que vivo. Observo como imaturo tudo se apresenta longe do racionalismo austero que tudo invade de variáveis complexas e destruidoras dos princípios básicos que a tudo deveria assistir. Tudo matematicamente derivamos a luz das ponderações infinitas com que nos habituamos a viver. Nada nos da mais prazer que o nosso egocentrismo com se vivêssemos para um onanismo espiritual sem outro valor que os nossos próprios interesses. Vivo no inferno dos números pois um mero numero sou. Sem vontade ou querer. Predefinido... Predeterminado... Formatado... Gado... Marcado... Corre meu caminho nos sinais que pelos outros foi marcado. Farto! Saturado! Que fazer?... Sair eu próprio do caminho rumo a um novo, por mim definido? Aceitar a in-humana condição de não poder fugir a malha de uma rede demasiado fina que me sufoca para lá do sustentável. Insuspeito... De tudo neste ponto suspeito. Das boas vontades... Dos sorrisos ímpios que disfarçam outros quereres encapotados no seu próprio bem. Invariavelmente cobarde... Lamentavelmente insatisfeito... Grito... Grito bem alto de forma a que ninguém me ouça. Mudo... Sinistramente mudo... Mantenho a vontade de arrasar tudo com o sopro da minha fúria... Sinto-me num daqueles dias que me apetece rasgar o passado esquecer o presente e queimar o futuro... Consumo o pensamento na raiva.

As ruas estão preenchidas de ecos de luz esvaziada de contexto. Sem nexo. Sem brio nem brilho. Todas as luzes são portadoras de falso sentido de ser... Aberrantes, mutações improprias com o único intuito de tirar aos espíritos o negrume merecido. Esquivas, assassinas insensíveis de um descanso que tarda em colidir com o encerrar dos meus olhos. Devoradoras do desassossego que busco com frenesim impossível de conter na escuridão que me foge. Cruéis... Mostram-me o mundo irreal de sombras e reflexos inertes. Volto minha face para o vazio numa peregrinação fanática por um ponto algures no nenhures permita a identificação com os resticios que minha alma jura prometer. Acalmo... Desacelero a cadencia frenética de soltar palavras aleatórias numa folha virtual de luz assenta na lógica. Cercado. Profusão de ideias num vórtice de distribuição caótica acomete o meu pensamento. Uma super nova implode em mim divergindo numa convergência em meu ser milhares de emoções... palavras... ideias que na minha medíocre condição não consigo reter uma que seja. Os lugares comuns da física quântica tornam-se impraticáveis na minha transmissão neuronal. Sinto como se o zero absoluto convivesse em simultânea sintonia com um milhão de graus Kelvin sem que se contradigam ou anulem. Improvável impossibilidade reina no caos hoje em mim.

Saber

Uma manhã perdida. Gasta. Usada. Perda de tempo precioso de uma vida finita entregue a vagas sucessivas de ócio. Tempestade de imbecilidade. Sinto-me inútil. Nada pior que nada ter para fazer. Ser um peso. Cansa não ter nada para fazer. Fico exausto. Ansioso por ocupar o meu tempo. Arranjo desafios. Procuro informação relacionada com algo que não sei. Mas penso.. penso que já me tinha esquecido das coisas mais simples da vida. Tinha esquecido a pureza do ar. Tinha feito um reset intencional a tantas coisas com que me identifico. A ida ao Alentejo foi salutar. Poucas horas para ir a um funeral mas os breves instantes foram de  intensidade elevada. Sôfrega. Acordei e dei comigo a rever imagens de tantos momentos contidos n' a grande mudança da qual o Alentejo foi testemunha. Foi meu confidente. La o outro Eu morreu. Foi incinerado no verde amarelecido pelo calor extremo. Seco. Sequei a alma de tantas ideias disformes. Mas o que mais me marcou foi apreciar o quanto andava cego surdo e mudo. A minha veia pseudoliterária surgiu numa fase gravada a sangue e fogo no meu corpo e na minha mente. Comecei a apreciar o que via. Tentava absorver tudo. Como se a minha memoria estivesse vazia. A mente nada contivesse e tudo lhe parecesse novo... Fresco... Surreal... Irreal... Interessante. Dei comigo a procura de verdades escondidas nas coisas mais básicas que encontrava. Tentava racionalizar usando fazendo uso da consciência emocional. Criava misturas homogéneas num equilíbrio adiabático entre a razão lógica dos conhecimentos escolásticos adquiridos e a emoção pura. A contemplação irrequieta... Mutável... Incongruente... Uma guerra de sentidos sem sentido onde o tacto negava a visão que por sua vez negava o olfacto. Querela constante. Indefinida. Finita sem o ser mas sendo... Tudo continha respostas que se contrariavam mutuamente... Uma forma de budismo naturalista roçando um niilismo. Decompondo tudo na essência mais simples, sob a forma de uma peça do puzzle que em mim se encontrava omissa. Experiência concentrada de saber. Procuro saber o que esqueci de mim.