segunda-feira, 1 de março de 2010

Irae

Fechado está o meu céu carregado de injustiças acumuladas em tons de cinzento escuro. Em meu ser baixo ainda mais a gradação aos tons soturnos com a raiva que me assombra o espírito irrequieto. Imploro pela chuva. Pela tempestade força dez que conjuro com a intensidade de todos os ventos nela concentrada em mim. Não me corre sangue... Sinto mercúrio em efervescência a percorrer cada veia cada célula em meu corpo. Ardor! Ardor imenso... Puro... Mesmo com frio transpiro... Raiva... Raiva pura. Destilada mil vezes após as mil anteriores! Sem mais. Nada mais! Sinto energia suficiente para destruir mil universos. Engolir mil milhões de sois de uma só inspiração... Mas mesmo assim reconheço que tal não me faria arrefecer o temperamento. Consumiria mil buracos negros de dimensão inqualificável... Tudo arraso. Como se tivesse num infinitésimo de segundo tivesse sido arrastado para um ponto de inflexão com queda abrupta vertical. Total... Para o menos infinito do mais infinito de tudo o que posso sentir em mim!

Vejo a agua que corre rumo a um destino incerto pela mão da gravidade. Simples e a sua demanda pela conquista do destino a ela reservado na nascente. Invejo. Invejo muito a natureza simples e fira das coisas que observo, em antagonismo ao que vivo. Observo como imaturo tudo se apresenta longe do racionalismo austero que tudo invade de variáveis complexas e destruidoras dos princípios básicos que a tudo deveria assistir. Tudo matematicamente derivamos a luz das ponderações infinitas com que nos habituamos a viver. Nada nos da mais prazer que o nosso egocentrismo com se vivêssemos para um onanismo espiritual sem outro valor que os nossos próprios interesses. Vivo no inferno dos números pois um mero numero sou. Sem vontade ou querer. Predefinido... Predeterminado... Formatado... Gado... Marcado... Corre meu caminho nos sinais que pelos outros foi marcado. Farto! Saturado! Que fazer?... Sair eu próprio do caminho rumo a um novo, por mim definido? Aceitar a in-humana condição de não poder fugir a malha de uma rede demasiado fina que me sufoca para lá do sustentável. Insuspeito... De tudo neste ponto suspeito. Das boas vontades... Dos sorrisos ímpios que disfarçam outros quereres encapotados no seu próprio bem. Invariavelmente cobarde... Lamentavelmente insatisfeito... Grito... Grito bem alto de forma a que ninguém me ouça. Mudo... Sinistramente mudo... Mantenho a vontade de arrasar tudo com o sopro da minha fúria... Sinto-me num daqueles dias que me apetece rasgar o passado esquecer o presente e queimar o futuro... Consumo o pensamento na raiva.

As ruas estão preenchidas de ecos de luz esvaziada de contexto. Sem nexo. Sem brio nem brilho. Todas as luzes são portadoras de falso sentido de ser... Aberrantes, mutações improprias com o único intuito de tirar aos espíritos o negrume merecido. Esquivas, assassinas insensíveis de um descanso que tarda em colidir com o encerrar dos meus olhos. Devoradoras do desassossego que busco com frenesim impossível de conter na escuridão que me foge. Cruéis... Mostram-me o mundo irreal de sombras e reflexos inertes. Volto minha face para o vazio numa peregrinação fanática por um ponto algures no nenhures permita a identificação com os resticios que minha alma jura prometer. Acalmo... Desacelero a cadencia frenética de soltar palavras aleatórias numa folha virtual de luz assenta na lógica. Cercado. Profusão de ideias num vórtice de distribuição caótica acomete o meu pensamento. Uma super nova implode em mim divergindo numa convergência em meu ser milhares de emoções... palavras... ideias que na minha medíocre condição não consigo reter uma que seja. Os lugares comuns da física quântica tornam-se impraticáveis na minha transmissão neuronal. Sinto como se o zero absoluto convivesse em simultânea sintonia com um milhão de graus Kelvin sem que se contradigam ou anulem. Improvável impossibilidade reina no caos hoje em mim.