Juiz
Acordo pálido do rubor frio que preenche a minha face. Constato a evidencia categórica do que me recusava aceitar assumir como verdade. Ceguei. Perdi de vista o que realmente considero importante e que enalteço em mim de forma tão vigorosa. Exercendo um ensaio redundante de cólera constante, vociferando contra tudo e contra todos, sem pejo ou tréguas, a minha maneira de ver. Tornei-me em sede própria simultaneamente legislador investigador procurador juiz e júri. Sem contemplações em julgamento sumario sem o direito de defesa condeno algo apenas para dar uma aparente legalidade, quando à partida com o carimbo de culpado é marcado sem que a culpa tenha transparecido diante de mim. Elevo-me a condição auto-proclamada de pelotão de fuzilamento, descarregando furiosamente frases num desejo incontrolável. Mudo... Disparo ainda intencionalmente uma ultima palavra de misericordiosa vã como se pretendesse certificar-me da minha obscena vitoria. Carrasco. Sinistro. Cruel. Arrogante. Distante. Distante do caminho de rigor e isenção que por mim julgava ter traçado em promessas já feitas. Incoerente me sinto em mim.


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