quinta-feira, 4 de março de 2010

Confesso

Escuto sons escorridos de tons sem magia de uma cascata que seca corre livre de um rio imaginário. Precipita-se de braços abertos para uma queda apaixonada no vazio ermo, conhecendo das vidas passadas a realidade do seu destino inatingível.  Rumores distantes em surdina abafada vagueiam parados no tempo quando o tempo me dava alento. Sinto em mim que a escrita não me concede a graça do descanso que nela tanto almejo. Prova de fé solitária marcada a fogo em cada letra, que escrita de mim, gravada é em meu ser num incandescente ardor. Dialogo impossível de um narrador sem ouvintes. nos monólogos partilhados entre mim e minha consciência noto como as minhas palavras se tornaram agrestes. Inóspitas. Não leio o que para trás das costas lancei ao mundo. Tal como o pano de nevoeiro cerrado que amanheceu sobre o mundo assim estão os meus textos com a raiva que me inunda a consciência. Relembro vagamente palavras de paixão esperança e desilusão sentidas pelo desencontro com os sonhos. O que mais queria surgia difuso qual o sol que pontualmente bafeja o dia com uma vaga de luz apaziguadora e calorosa. Vejo-me como uma nuvem passageira... Demasiado longe do espaço dos sonhos... Demasiado longe da terra da realidade... . Por vezes e me dada a ilusão de tocar na terra... Saborear as copas das árvores verdes de uma esperança fugidia... Apenas para o vento do destino me apartar novamente do instante sagrado concedido. Por vezes espraiado pelo infinito, diluído num céu excessivamente vasto para concentrar a densidade das minhas emoções. Outras de cinzento profundo carregando, de negro tingido, trovejante mil raios de raiva inabalável. Vivendo numa equidistância de tudo o que quero que se funda na entidade única da realidade sonhada. "Não sonhes" sonho... "não penses" penso... "não acredites" acredito... Acredito... Acredito no que não creio jamais ver realizado. Acedido... Vou acreditando... Nas minhas palavras vejo um pouco da mascara bem como um pouco do Eu mesmo... Um pouco do todo que sou que quero ser e de quem não sou. Pergunto-me quem escreve... Serei Eu Mesmo?... Será a mascara?... Será o ser quem sou resultante da confluência de ambos?. Quantos Eus guardo em mim escondidos cada um com o seu querer e o seu ser? Qual a distancia que existe entre ambos? Qual o mais importante? Será a mascara algo que faz de mim quem não sou ou a manifestação de quem eu quero ser não sendo? Confuso. Tudo em mim vive por si em mim numa encruzilhada de querelas constantes e ascendentes irrequietos. Não sei ser quem sou. Perdido em divagações de mil caminhos que me impelem o querer a seguir os que não existem sento-me a ouvir os murmúrios do vento a sombra de uma ilusão só minha que ouso partilhar em palavras com a ambição perdida dos sonhos contidos em mim.