segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Eclipse



Rasgo com vontade renovada o pano que nega a minha vontade de sentir o eclipse que se esconde em mim. Observo o movimento lento da sombra da minha lua no caminhar decidido para o sol que me ofusca e pretendo que aqueça tudo o que frio em mim está. Em dança síncrona os dois celestes corpos entregam-se um ao outro num frenesim incontido. Sinto a frescura da distância excessivamente próxima entre ambos. Vejo a coroa solar do eclipse intimo de meu ser como a expressão máxima de meu desejo de tanto deixar para trás. De soltar no nevoeiro perpetuo do esquecimento tudo o que me aflige e corroí o ser. Tudo o que possa corromper a minha determinação em atingir o Meu sonho. Perpetuo a imagem... Fixo-a nos olhos da minha mente. Vejo o reflexo do teu olhar. Vejo teu sorriso. Tudo claro se torna... As cores primárias atingem as tonalidades cinza de um fotograma a preto e branco de resolução insustentável nitidez. Sinto que ambos os astros me contemplam, aquecem e simultaneamente sobre mim lançam ventos gélidos. Oiço a minha voz interior... Todos os meus sentidos despertam. Sinto o frio e o calor... O toque... O odor... O som... As cores. O tempo o espaço... Tudo... Tudo se une num único sentimento. Tudo de toma a presença do mistério. Sinto a presença inatingível de uma trovoada ao luar... chuva sem nuvens. Sol sem luz. Noite sem trevas. Pois em mim o eclipse não me permite deixar para trás o que quero... Leva-me a seguir em frente. Conduz-me no desafio de encontrar um caminho de volta a mim.

PS: Elipse vem do grego ekleípō que significa deixar para trás.

domingo, 30 de agosto de 2009

Lacrimae





Observo com imensurável carinho o deslizar de uma lágrima tua que esquecida persistes em guardar em ti qual tesouro demasiado perfeito para ver a luz do dia... Leio cada movimento que perpetuo dura um instante... cada alteração no seu sentir em tua pele. Vejo como o rasto de saudade luminosa tudo mostra ser. Em teu alvo queixo atinge o ponto de não retorno. Pela gravidade acometida simplesmente pinga. Seguro-a na palma da minha mão. Sua simples complexidade sinto. Sinto... Sinto o ardor flamejante de tanto sentir condensado numa única gota de emoção pura teu ser destilado. Vejo o por de sol do solstício de verão que aparentemente distante, presente vive em mim.... Sinto o calor frio da noite na tua presença ao sabor de uma lua tímida que tudo testemunha calada. Sinto os sonhos... As desilusões... Os pensamentos... O sentir. Meus os torno. Conjuro todas as forcas de meu ser no teu bem em segredo. Sacrifico meu pensamento no teu. Tomo tuas desilusões como minhas pois as tuas lágrimas em meu rosto deslizam como reflexo que perdido no tempo insiste em se manter vivo em mim. Tudo calo no silencio que me assiste. Tudo em mim vida se torna em cada suspiro que solto no calor de uma luminosidade que insiste em não se tornar noite. Na escuridão... Na noite cúmplice vestido estou de um Eu Mesmo que insiste em ser quem nada é... Tudo sentindo.... Tudo sendo... Num solesticio que nos une reencontro meu sorriso no teu olhar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Resposta

sem respostas
calado fico
sem palavras
sem querer
(tudo querendo)
persisto
insisto
numa questão
que solta
(numa ilusão)
em mim
a revolta
sem nunca
encontrar A
r
e
s
p
o
s
t
a
minha dúvida
é assim
(novamente)
reposta

Raiva

Calo o pensamento por uns instantes. Leio com os olhos toldados pela raiva, as palavras dos falsos profetas do sentimento que teimam falar da sua obra como exemplo. Como ousam? Como podem? Como?... Criminoso acto de falar de sentir nada sentindo. Exprimem detalhadamente sentidas emoções que no seu ser não vivem. Não apenas amor mas tudo o que pode afligir a nossa mais pura demonstração de humana existência. Tomam como sua a perda dos outros. Descrevem cada expressão, cada sorriso cada lágrima com um detalhe, com um rigor próprio de uma neurocirurgia. Em suas mãos guardam vital poder. Com uma frieza gélida de entidades divinas vão retalhando e dissecando o ser maior que em nos vive sem sentir um tremor na mão que segura o bisturi. Rasgados elogios são tecidos. Prémios entregues. Aplausos. Livros vendidos. Atingem o panteão dos deuses da escrita envoltos na bruma da mentira edificada. A cada palavra lida sinto todo o meu sentir entregue a maior oferta numa qualquer encadernação. Entregue a um altar sacrificial de vergonha. Fecho os olhos. Meu ser pela cegueira atingido é. Largo o quadro inacabado de meu ser. Perdida sinto pontualmente a vontade de pintar as letras do que em mim vive pois outros escrevem não sentindo o meu sentir.

Questão?

nada em mim
compreendo
se tudo o que
(sinto)
entendo
porque razão
continuamente triste
vou sendo?

Nostalgia

Sinto-me acometido por um sorriso carregado de sentida nostalgia. Sinto-me tremer. Sinto as palavras que a minha mãe me costumava dizer. Lembro. Relembro o conforto do seu colo quando pequeno me confortava os desaires da vida. Ou do seu riso quando me via nas minhas macaquices. Os das quedas próprias de pardais de asas jovens que ainda procuram descobrir as sensações dadas pelos ventos da vida. Tantas memórias. Lembro tudo. Saudades tenho dos raspanetes por na primária não querer estudar ou apenas fazê-lo em cima dos testes. Ou das suas insistentes e infrutíferas tentativas de mudar a minha letra que de médico nada tinha. Convenceu-se que a letra era um caso perdido. Personalidade dizia-me ela com um sorriso malandro. Reconhecia-me inteligência. Puxava constantemente por mim. Lembro-me como aos três anos já conhecia letras e juntava silabas. Ou enquanto ela dava explicações eu ia memorizando os mistérios de Bocage, Luís Stau Monteiro, Camões e tantos outros. A ironia que ela usava por vezes... A pedir-me para explicar aos seus explicandos com infantis quatro anos o que era o locus horrendus.. Ou tantas outras duvidas próprias da literatura bocagiana... Ou para recitar o auto da barca do inferno. Tantas... Tantas memórias.. Uma guardo com particular interesse... Como cheguei a acordo com ela para aprender a tabuada do um do dois e do três em troca de um carrinho. De como me senti mal por tal ter feito e em meia hora ter aprendido toda a tabuada... Do um ao nove. Mas não recusei o carrinho... Ou como não criticava as minhas composições abstractas que roçavam a loucura de uma imatura maturidade. Como até as incentivava. Orientando-me. Indicando um caminho possível quando sentia que tinha atingido um eventual beco sem saída. Ou das palavras soltas que trocávamos. Ou como ainda novo chega perto de mim com uma caixa de preservativos. Como me ensinou o que era o respeito. O verdadeiro sentido de tantas palavras que hoje em dia parecem vulgares nos lábios de tantas pessoas. A eternidade da minha finita existência marcada estará pelas saudades. Tanto ficou por dizer. Muito mais por aprender. Tanto dela guardo em mim. Tanto sinto que com ela ganhei. Tanto agora sinto que perdi. Tanto sinto que lhe devo. Não apenas a vida que em maternal ventre gerou mas grande parte de quem sou.

Fado



Calo meu silêncio num grito de uma imaginária guitarra vibrante em mim. Mil sons de outros tantos tons ecoam à desgarrada por toda a caixa de ressonância em que se tornou meu ser. Atinjo os tons ineditamente inaudíveis das cores de tonalidade invisível. Cada simples arranhar das cordas, por mais suave que seja faz, estremecer meu mundo com uma beleza apocalíptica. Todas as notas em mim existem. Continuamente a afino para que atinja o vermelho fogo do pôr de sol prometido de verão, numa promessa de um dia de calor, que ainda desconheço se alguma vez se tornará realidade. Persisto em desafina-la. No som rude e desconexo existe também a beleza apelativa de tudo o que não está padronizado como belo. Tento conter... Controlar-me... Resistir ao paradoxo que palpita em mim. Não resisto em divagar desprendido da vontade de me encontrar. Assento novamente a mão sobre a guitarra de mim com intimidade calorosa. Sinto na ponta dos meus dedos o calor gélido das cordas que me fazem vibrar a alma. Percorro a sua textura de sonhos feita... Na acuidade visual de uma cegueira sobre humana tudo vejo em mim. Não temo ver. Temo o que nunca irei ver. Em desafio, neste constante desafinar afinado. vou sentido tudo o que em mim vive. Tudo isto existe, por vezes triste... Tudo isto é o meu fado.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sonhos

Adoro meus sonhos que despertos vivem em meu pensamento. Como os vejo reais em meus olhos... Como os sinto na minha pele... Tudo sinto... Tudo e verdadeiro... Tudo é sentido... O calor... O frio o toque o sabor o odor. Tudo é demasiado real no meu particular sentir. Desconheço se será dom... Ou maldição sobre mim carregada por superior entidade que insatisfeita em carrasco se tornou. No seu querer cordeiro sacrificial me tornei da emoção que persiste em ser minha sombra. Sinto meu sorriso relegado para as trevas. Na escuridão, sem o brilho maternal da lua meu ser deambula na cavernosa penúria do tudo sentir.
Um destes sonhos atinge o Éden qual linha da vida que buscamos agarrar com ambas as mãos do destino mas que eternamente se escapa entre os dedos da inconsciente razão que tudo julga conhecer.

Tenho a minha cabeça deitada em teu regaço... Sinto a tua mão deslizar na minha testa lentamente qual o ultimo raio de sol de um por de sol distante... Vejo lágrimas a deslizarem pelo teu rosto... Pontualmente uma cai na minha face, sempre que beijas as minhas próprias lágrimas. Nada dizes... Seguro a tua mão com suave firmeza de quem tem todas as certezas... Esboço um sorriso tímido... Uma das tuas lágrimas cai nos meus lábios sinto o sabor de todos os teus sonhos que em ti calados deslizam com uma fluidez incontida dos teus olhos ... Tocas muito suavemente os meus lábios com os teus... Levanto a minha cabeça... Encostamos a cabeça no ombro um do outro... Ficamos abraçados ao nosso silêncio... Quietos perdidos no tempo que agora nada e... Ouve-se lá fora uma brisa tépida ligeira com promessa de uma chuva de verão... Ouvimos o pingar vagamente subtil.. Saímos para a rua sem nada dizer apenas olhando para os olhos um do outro e assim tudo dizendo... Abraçamo-nos assim a chuva... Quietos... Sinto o cheiro do teu cabelo agora molhado... Sentimos o cheiro da terra fresca purificada pelas gotas que ainda teimam em cair felizes... Vejo algumas gotas a deslizarem pela tua face... Afasto o teu cabelo molhado que insiste em tapar o teu olhar que sorri... Beijo-te os olhos... Digo... Obrigado por seres tão única... Obrigado por seres tão especial...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Caos n'O Caos

Contemplo com consternação o caos reinante n'O Caos da Vida. Inicialmente um mero caderno de capa negra era, onde em cada folha escrevia o que sentia em dado momento. Não escrevia todos os dias. Não tinha um padrão. Não era previsível a vontade de escrever. Escrevia apenas por necessidade de gritar o que em minha alma calava e ainda calo. E apenas quando a necessidade de sangrar a dor se tornava incontida. Nem sempre O Caos da Vida me acompanhava pelo que em folhas dispersas, com que cruzavam meu soltava o que em mim escondia. Posteriormente comecei a tornar publico no homónimo blog. Cada post sucedia-se sempre posteriormente a ter gravado em tinta o que me passava na alma. Tentava esculpir com o aparo da minha caneta a forma do meu pensamento... Este cinzel de iridium feito, no gotejar constante da gravidade rasgava a fria pedra virgem de tudo o que em mim habitava, dava-lhe os contornos que no meu ser não me conseguia aperceber... Consegui sentir a forma, a textura a suavidade da superfície. Por vezes permanecia fria outras tantas quente... No divagar da vontade própria o escopro do sentimento dava-me forma numa ânsia incontrolavel... Conseguia ver-me materializado. Real. No papel tatuava o meu ser na ânsia de uma resposta ou uma luz... Agora... Tudo mudou. A ordem perdeu-se. O método. O real papel e o virtual código binário tornaram-se entidades desconexas... Vivem sobrepostas, paralelas tocando-se pontualmente. Não consigo acompanhar o evoluir de ambos como se um só fossem, apesar de na virtual realidade do meu ser onde verdadeiramente existem o serem. Complementam-se. Troquei as folhas dispersas pelo PDA. Registo directamente na força incontida piscar do cursor. Penso numa trégua. Uma paragem forçada. Tentar escrever o que falta em ambos... Poderia optar pelo facilitismo de uma impressão... Mas não é o mesmo. As palavras têm de ser sentidas na tinta. Tenho de sentir o arranhar do papel... O grito do fluir da tinta. O grito de mim. O manchar com o negro sangue que corre em meu ser. Na tinta de uma vulgar caneta tudo verdadeiramente exorcizo de mim.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Penso...

Afundei o meu ser numa paragem abrupta no raciocínio. Continuo sem respostas para a apatia ontem sentida. O vazio do querer nada querer é sinistro. Confesso que senti medo que tudo em mim tivesse mudado. Acalmo.. Visualizo de onde vem o medo de pensar. O nosso sentir mais primordial. Antes mesmo de qualquer outro sentimento o nosso primeiro sentir não fisiologicamente alicerçado é o medo. Todos os avanços da humanidade em coragem estão erguidos. Em tudo que fazemos existe sempre a magna dúvida de medo sentida. Estarei a fazer bem? Quais as consequências? Tento todos os dias calar essa vergonhosa cobardia. Continuamente questiono em mim todas as questões numa redundância transcendente. Evito pensar no efeito borboleta da decisão tomada. No entanto uma outonal vereda de árvores em mim enraizadas, atravessa meu caminho. Vejo nas folhas caídas o resultado das possíveis consequências das decisões tomadas em emotiva consciência. Levanto a dúvida se não será antes uma racional inconsciência. Na contradição do motivo vislumbro cada vez mais nitidamente a imagem de quem sou no meu pensamento. Cada ramo que se ergue, orgulhosamente trespassando o céu do meu ser, atiça o crepitar da fornalha de tudo o que em mim existe, tudo o que meu ser mais profundo, nas trevas do esquecimento etereamente presente, insiste em sentir. Num crescente quarto minguante vejo o luar do que penso. O saudoso brilho de lua cheia em mim partiu... Tento sentir não sentindo inveja de quem não pensa. De todos os que em temor vivem inconscientes de si. Evitam-se. Não os critico. Compreendo quem assim vive. Nada nos faz recear mais que meditar sobre todos os sentimentos que largamos no esquecimento. Não sei. Sem querer querendo continuo a pisar as folhas do meu caminho sentido no estalar de cada uma os murmúrios de tudo o que perdi de mim. Ressoam demasiado alto para serem ignorados. Pois cada um é um fragmento de um todo que apenas eu conheço de mim.

domingo, 23 de agosto de 2009

Apatia

Estou apático. Mudo. Enrolo-me no canto do sofá questionando-me o ausente motivo de meu estado. quando tudo em mim é sentir como é possível nada sentir. Esse mesmo nada preenche-me. Afogo o meu espírito em gotículas de nada que nada são. Tento distanciar-me. Saltar de um pulo do meu recanto reconheço ser impossivel. Colado ao azul tecido do profano espaço que ocupa meu casulo. Aparto meu ser de mim na esperança de encontrar junto da bucólica paisagem das searas onduladas pelo vento tardio de verão uma inspiração. Beber nessa imagem o dinamismo que me falta. sinto a sua caência letárgica que divaga sem saber para onde, desconhecendo o seu destino. Nem nesse mar suavemente agitado, doirado pelo astro rei, encontro o entusiasmo que em mim constantemente hoje teima em permanecer... Nem o entusiasmo triste das palavras soturnas que debito, sangrando meu sentimento, no miserabelismo de um estado de alma de desencontro criado, sinto a stamina regeneradora. Estou parado. Parei a minha realidade espaço-temporal. As três dimensões básicas, vagas se tornam. A luz de Chronos desvanece-se. Procuro um relógio que tenha uma marcação audível. Algo.... Tudo que me faça sentir em mim uma cadência, que por muito lenta e insípida o seja. Consigo ver os ponteiros a correr seu curso mecanicamente estabelecido. Mas não sinto o seu movimento. Perco de vista o tempo. Tento um zapping por canais de natureza fútil e consumo imediato. Ocupo a mente tentando analisar se existe algum padrão no voo caótico de uma mosca. À falta de estimulo real, volto-me para o virtual. Escrevo.... Descrevo o que sinto, apavorado pela perda de cada letra que vou lançando nas palavras que julgo desconexas na vã esperança que num todo arrítmico ganhem uma qualquer melodia que isoladas me escapa ao pensamento. Sinto o luto da perda de tempo. Culpabilizo-me pelos segundos perdidos. Aguardo o movimento que parado insiste em manter-se quieto. Penso que este seja um dos dias que tão pouco pensei no pouco que me tornei.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pax

A paz do meu mundo envolto no silêncio imaculado da negra noite, minha confidente, interrompido é pelo lancinante grito do engenho humano. A subtil trégua que na noite se vive neste mundo de onomatopaico existir de caótico engenho que chamamos dia a dia rasgado é pelo som distante do facilitismo que a humanidade, na sua interminável sapiência toma em mãos. Sinto o aproximar das maquinas que a noite limpam, em vão, as cicatriz da cinzenta edificação que chamamos cidade. Minha paz abalada. Meu lago de calmaria onde contemplo meu pensamento agita-se. A turbulência do frenético ruído propaga-se pelo ar ansioso de paz. Tudo torna novamente a sinistra aparência diurna. Sinto a raiva invadir-me. A sacralidade do Meu momento interrompida está pela pagã e criminosa actividade que na rua insiste em manter-se. Confunde-se o ruído da bestial maquinaria com gargalhadas desproporcionadas e comentários impróprios de quem ignora conceitos básicos de civilidade. Não adianta. Perdido nesta noite meu momento está. Disperso-me em futilidades banais e injurias apocalípticas. Os meus sentidos, que anteriormente conspiravam em uníssono, concentram-se no que não querem. Penso. Sinto. As ruas estão limpas mas o meu pensamento foi irremediavelmente perdido.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fiat Lux

Acordei calmo. Muito calmo. Senti que a noite em sua misericórdia limpou meu pensamento. Sinto em cada fragmento de mim uma paz interior inenarrável. Pensava que dias de destruidor desespero se sucederiam tomados pelo vendaval que ontem em mim sentia. Dies irae... Medito na força destas palavras... Sinto a pungente violência de cada uma das letras que constituem seu todo. Dias de fúria... Não fúria como sinónimo de raiva mas de furioso desespero de mil tormentos feito... Reflicto sobre o requiem dos sonhos perdidos que ontem em meu ser ressoava. Penso como mudei numa noite entregue à consciência de um inconsciente sentir. Que se terá passado. Que me terá tocado em sorte agora. Acordei com clamor traduzido num grito ensurdecedor... fiat lux... Ouvi dentro de mim. Todo eu estremeci. Sem saber como explicar o que sentia nem os mistérios que a noite, minha confidente de longa data, a coberto de sua imaculada escuridão lançou sobre o meu espírito. Terei em meu sonho encontrado o meu renascimento? O Génesis?... O inicio que buscava? Não consigo vislumbrar respostas... Apenas questões... Muitas mais questões... Mas sinto que encontrei a alma mater. O inicio. A nascente do meu rio que entre as folhagens do desencontro se escondeu de mim. O enredo mais adensa-se quando penso nas poucas horas que tenho sentidas como mal dormidas. No entanto, na estranheza de um dia que se revela em harmonia sinto uma frescura pouco habitual. Não me sinto cansado. Nem penso no trabalho. Estou em paz comigo. Encontrei-me! No temor de Dies irae acabou por se ouvir Fiat Lux.

Sem Titulo

Mil palavras
(soltas)
Desprendendo em mim
(estou)
Tento na lógica
Esquecida de emoção
Relembrar tudo
(que perdi)
Em cada batida
De meu coração
Que secamente
(sem ti)
Preenchem
O vazio
(de quem sou)

Requiem

Na solidão do silêncio que no vazio dos meus braços sinto tenho um momento de lúcida clarividência. Compreendo finalmente que a felicidade não a procuramos. A felicidade encontra-nos. Calo o sorriso. entrego-o aos pés do altar do meu ser. Arrumo-o com solenidade missal ao som de Requiem nocturno. A seu lado deposito meu sonho maior. Meu sorriso para sempre estará alinhado com o sonho de ser feliz. Com desprendimento evito olhar para trás. A vida faz-se seguindo em frente. tudo passa. A vida mais não é que um rio... Da nascente até a foz onde nos diluímos na matéria primordial e alimentamos o oceano da nova existência tudo são curvas. Paro. Escuto novamente o Requiem a meu sentir composto... Sinto cada nota como a despedida de um amigo que me acompanhou a eternidade. Evito as lágrimas. Cerro os dentes em desespero de quem a dor lancinante sente de uma amputação a sangue frio. Calo a dor. Mantenho uma réstia de dignidade ao espelho do que resta de mim. Ergo o queixo. endireito as costas toldado pela dor que atravessa de lés a lés meu ser em toda a sua existência. Revisito as marcas de tempos idos... Em meus ouvidos continuo a ouvir o meu requiem

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

(I)Mutável

Em tudo penso. Nas palavras, na entoação das palavras, no timbre que em mim as profiro. No significante e no significado. Nos gestos, nas acções. Nos passos que dei apressadamente na ansiosa ansiedade de alcançar O sonho que persigo. Nos que estupidamente recusei dar. Penso no que penso. Sinto o vento da mudança no exterior do meu espírito agitando tudo com a força de uma tempestade tardiamente anunciada. Meu exterior agita-se com a impaciente possibilidade. Penso nas possibilidades que se avizinham se em mim penetrar esse sentir. Olho para trás. vejo as pegadas da vida em minha alma assentes. Estranha impressão. Impressionado fico. Sinto que o altar de mim, que por tras da mascara escondo, profanado foi pelos impuri. Retalhado em mil pedaços... Sujo. Quantas vezes limpei meu ser, na solenidade do luto do sentir do bater seco de um requiem em meu coração, na esperança encontrar novamente o caminho de que me perdi consciente de um fim anunciado. Quantas vezes calei o oráculo da minha consciente racionalidade que me alertava que iria meu sonho terminar em pesadelo... Quantas vezes preferi o divino sentido do sentir pelo sentir na falta de clarividência previdente. Recolhi do fundo do meu ser os fragmentos do papel de que sou feito, amarelecidos pela humidade de lágrimas muitas vezes caladas pelo respeito. Viro-me... conto as incontáveis pegadas. Perco-lhes a matemática contagem. Penso na mediocridade da minha acção... Recuso quantificar. Recuso a razão. Recuso a mudança. Fecho as janelas do meu ser com as sete chaves de um sentir maior. Sinto pela sacralidade do sentir. Sinto por ser Eu Mesmo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Fuga

Não adianta fugir ao pensamento. Meu pensamento é omnipresente. Omnisciente. Sempre. A fuga a seu jugo é impossível. A ressaca da minha existência traz-me para a realidade obscura do meu espelho. Esqueço os sonhos de sonhos feitos. Tento vislumbrar em mim quantos sonhos dentro de meu ser habitaram. Que todos sobre outros que passados, desmoronados em lágrimas, edificados foram. Todos os meus sonhos assentam uns sobre os outros. Outros lhes seguiram. Mas na perpetuidade de um sentir que me assiste, tento ler qual o meu sonho primordial. A génese. O inicio. O principio de tudo. O ser que me tornou quem sou. Todas as ideias e pensamentos que me atingiram. Talvez para mudar seja essencial regressar ao inicio. Apenas vislumbro resquícios poeirentos esquecidos na memória do sofrimento mas presentes a cada instante numa imensurável partícula de meu sentir. Pergunto ao ecoo dentro de meu ser qual o motivo de ser quem sou. Qual o meu sentido... Qual o sentido sentimento de meu sentir. Ressoa minha questão... Atravessa tudo em mim. Apenas escuto o ressoar subtilmente mais baixo da minha inquirição regressar ao ponto de partida órfã de resposta. Talvez algumas perguntas só tenham verdadeiramente sentido se sem o reflexo da resposta ficarem... Ou talvez seja demasiado surdo para a escutar... Penso... Penso na possibilidade da resposta que procuro seja demasiado complexa... Ou excessivamente simples que minha normal falta de objectividade não a atinja... Tento afastar o fantasma de Eu Mesmo recusar ouvir... Recuso o aceitar o medo da resposta seja a que não quero ouvir. Ou que seja a que sempre quis. Ou... que pura e simplesmente não seja digno de uma resposta... Pois todas as realidades na individualidade do sentir que em mim vive são estanques... Vivem per si imunes umas as outras... E cada uma com a sua resposta que em uníssono em babilónica entropia se tornam... Anulando-se... Castrando-me a possibilidade de reencontrar em mim o fio da meada que me foge.

sábado, 15 de agosto de 2009

Regresso

Rasgo de meu ser as palavras que dizem tudo o que sinto neste instante. Procuro... Procuro reencontrar o eu que larguei anos atrás. Promessa a mim mesmo feita traída num momento que quis me sentir em mim. Pago o preço de uma promessa quebrada. Esqueço o caminho que de nevoeiro cerrado, me ilumina os sonhos. Esqueço. Tento.... Tento em vão esquecer-me. Esquecer o teu sorriso. O teu olhar. Todas as noites que imaginadas em meus braços dormis-te. Esqueço... esqueço a calma. Esqueço a paz d'alma. Devolvo meu ser ao Caos da Vida. Perdido estou nos dois mundos de mim. Obcecado pensas. Depressivo sentes.. Não... Somente tento vislumbrar o que sinto... Seguro em tremulas mãos um aparo... Uma lamina de sentimentos que me cortam o mais intimo que guardo de mim. Hesito... Descrente em minha acção tento uma ultima vez imaginar-te no meu colo. Sorris... Pura... Olhas-me a alma que já não é minha... Pergunto que vês... Apenas o silêncio do teu sorriso que vejo desvanecer defronte de meus olhos toldados pelas brumas da memoria contemplo. No silêncio pesadamente sufocante, perante ti exibo um ultimo sorriso. Levantas-te... Apartas-te do meu caminho... Sem soltar uma palavra. Teu silêncio preenche todo o universo que nos rodeia. Relembro o odor da tua pele impregnada da chuvada de verão onde vi todos os meus sonhos que recondidamente perdidos teimam em se manter vivos. Toco na ponta do aparo de um instrumento de escrita que de iridium mais não é feito. Meu ser transmuta-se numa simples caneta. Vulgar comparação vês. A alva virgindade de uma folha sinto em meu ser qual torniquete que sustenta incontida hemorragia desprendido é. Sinto tudo o que quero evitar sofrer. Largo o negro sangue de emoção pura com desprendimento. cada gota de tinta toma a tonalidade rubra de todos os sonhos perdidos. Emotivo... Demasiado emotivo sentes... Digo que não mais serei eu. Serei a mascara que ousei posar perante ti. Quem sou... quem serei... que serei...Pois sem mascara nada sou... Apenas um sonho adiado que teima no sentir ser sonhado com a mascara nada sou de mim mas serei alguém diferente de mim.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Memórias

Afinal que são as memórias? fotografias que guardamos no nosso ser de todos os momentos. todos os instantes. Milionésimos de segundo que nada são e tudo nos dizem. Cicatrizes... Marcas... Vértices geodésicos da alma que nos permitiu orientar quando perdidos nos encontrávamos Campos magnéticos que desmagnetizaram a nossa bússola levando o ponteiro da nossa vida a rodar em todas as direcções sem sabermos para onde vamos. Que São as memórias? Tantas guardo em mim... Tantas que gostava de apagar sem vestígio da sua passagem pela vivência que fiz de mim. Não olho com arrependimento para tudo o que mudou a minha personalidade. Tão pouco Penso que que bom seria não as ter vivido. Todas elas fizeram mim quem sou. Boas ou más é um conceito subjectivo. Tudo é importante. A tudo dou importância. Talvez seja esse o erro da minha vida. Em mim cada memória é mais que um mero instante em mim. As memórias são sentimentos. Cada uma delas carrega o peso de um riso de uma lágrima... de tudo... cada uma delas é um fragmento de quem sou

sábado, 8 de agosto de 2009

Quem Sou?

Sou o Sul do Norte
Solarmente Lunar
Sou tudo não sendo
(nada)
Sou nada tudo sendo
Sou o dia da noite
Sou a noite do dia
Sou não sendo
Claramente obscuro
Genialmente medíocre
Positivamente Negativo
Negativamente positivo
Verdadeira contradição
Realmente irreal
Tristemente alegre
Alegremente Triste
Desconfiadamente confiante
Quem sou?
não querendo
(sou)
quem vou sendo
sem querer ser
quem sou

Palavras (Tantas)

Flutuo ao sabor das palavras que na agora virtual caneta uso materializada por um vulgar cursor que pisca de impaciência por uma ideia inspiradora. Procura à minha semelhança aquele algo que o faça lançar as palavras que ambiciona. Nada... Apenas as reticencias das ideias contidas em tantos pensamentos que me assolam. Escravo sou do pensamento. Agrilhoado a seu jugo titânico e ditatorial me encontro sujeito. Apenas penso. Mas faço-o. Arrisco o encontro com tudo que não quero ver, pensar ou sentir. Pergunto-me porque... Quando tão mais fácil seria levar uma vida insípida de cor na escuridão de um dia a dia invisual a tudo que na minha mente passa. Imune. Naturalmente imunizado de pensamento já deveria ser. Demasiado, por insensato seja este meu pensamento (que persiste em ser) errático, penso em não pensar. Penso em... Pensar... Porque insisto em pensar. Seja através de uma caneta ou um inexistente cursor fatal tentação sinto em escrever. Debitar palavras ao sabor das ideias que me vão passeando perdidas por cada ponto do meu ser impelindo meu pensamento constantemente para níveis cada vez mais elevados. Sinto esta vontade como um vicio. Viciado sou em pensar. Mas não me afasto desta funesta dependência... Procuro-a... Arraso meu ser na sua procura... Encontro-a... Mas... Mas deprimido fico com tantas ideias. Tantos sonhos. Tanto de mim que vejo desfilar na parada de meu ser e tantas e tão poucas são as palavras que tenho para as (d)escrever. Não sou nada. Apenas as palavras são quem sou!

Vazio


Penso no tempo que nada é e tudo quer ser. Vejo o flutuar o liberto das nuvens perdidas ao sabor de um vento insensível. Promessa de mudança que se quer breve penso. Mato o tempo. Tento não pensar no cravar de cada segundo que passa por mim, em mim. Vejo toda a redundância finita dos meus pensamentos. Palpo minhas limitações. Divago na busca de algo que me faça escrever. Preso me encontro entre a loucura da escrita e a apatia. Apaticamente escolho a apatia com desprendimento de não querer o que quero. Apatia de melancolia feita... Do tudo e do nada em que penso... Onde nada acabo por encontrar. Talvez seja essa a minha conclusão maior. O Nada. O nada em mim habita no tudo que sou. Taciturno pensamento faz-me sentir velho. Disforme... Saturado. Só. Perdi a companhia das palavras. Perdi. Não vislumbro no pensamento que me assiste a fuga desejada a este sentido. Vim à praia. Nem na companhia do meu velho amigo que tudo de mim sabe encontro o caminho. Meu companheiro de tantos pensamentos, de tantas lágrimas que secas na sua presença vertidas foram, nada me diz. Surdo sou a seus sábios conselhos em cada murmúrio de uma onda salvadora. Sou cego ao seu encanto. Mudo, calo os gritos silenciosos que tantas vezes lhe dirigi. Nem o mestre liberto da clausura da escuridão onde o deixo. Perdi as palavras. Perdi o sentir ao meu ser. Apenas uma pequena chama em mim arde consciente de mim.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Logicamente Ilógico

Vivo entre dois mundos que nada têm em comum. Vivo entre a lógica fria da decisão numericamente racional e a cor da emoção. Nada em comum... Talvez esquecido esteja que os dois mundos exercerem sua elíptica rotação em torno do sol do meu ser... Ambos em mim existem. Ambos fazem sentir sua atracão um sobre o outro constantemente. Há muito sinto que estes dois colidiram. Fundiram-se algures no tempo... Não senti em mim uma colisão... Não vislumbrei seu impacto que tão profundamente abalou meu ser. Não ouvi o ruído da sua assustadora união. Questiono a razão... Atraem-se e repelem-se num só todo... Neste universo de mim não há uma separação física entre a emoção e a razão. Não sinto um contorno difuso. Não vislumbro uma fronteira identificadora de guarida... De protecção... De salvação. Tu em mim se mistura... O real e o irreal... o verdadeiro e o falso... O profano e o sagrado. O imaginário e o palpável. Uma amalgama de lógica emotiva psicadélica é o meu pensamento. Como tal contradição é real... Em mim nada tem um principio nem um fim. Como... Sou a intercessão entre duas linhas paralelas que nunca se encontram. Sou a quantificação do menos infinito. Sou a divisão por zero. Sou tudo. Sou o tudo do nada. Sou apenas eu e o meu pensamento que já não e meu.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Imagens

Questiono-me se será sorte. Questiono-me... O porquê da minha imaginação criar imagens palpáveis multicolores que se espraiam em mim. Sei racionalmente que não existem... Que são fruto do meu pensamento. Que de volátil vapor inexistente realmente são feitas. Hologramas neuronais de um sentimento verdadeiro alicerçadas... Mas... A minha emoção, com todo o saber que a razão desconhece, faz-me sentir tudo como se real fosse. Todos os meus sentidos despertos são para o sentir que se avizinha a cada pensamento de ti. Tudo sinto. Tudo. Não apenas uma etérea presença ou uma mera sensação de que a meu lado estas. Irrealmente real é em mim o teu abraço. O odor do teu cabelo ainda molhado quando sais do banho... O toque húmido que sinto quando minha mão por ele passo. O vapor sublime da tua respiração em meu pescoço... O toque subtil com que roças teus lábios na minha pele na descoberta de mais um beijo... Tantas sensações sinto. Tento descrever com palavras que não tenho todas as imagens reais de nos dois juntos numa cumplicidade única... O omnipresente calor ténue da tua pele a centímetros de mim... O teu sorriso... O teu olhar. Não consigo. Falta-me o génio. Sinto que teu ser em mim existe. Que és real. Consigo te tocar. Beijar... Ver teus lábios trémulos de sentir contidos. Mas nas ilusórias imagens que reais são em mim ilusões vagas não crio. Não alimento fantasmas do amanhã que nunca virá. Consciência sempre presente tenho que não haverá um nós onde apenas existe um eu e um tu distantes... Unidos por este meu ser imprefeito onde à luz da imaginação tudo vejo. Tudo sinto... Tudo sou. Onde a minha vida toma as cores que só em mim existem esquecidas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Purificação

Tomo um banho com que procuro limpar o meu corpo de emoções transpirado... Deixo que a água sobre mim caía demoradamente...Tento numa esperança vã que me inunde a alma com sua redentora acção. Esqueço. Esqueço o que quero pensar e lembro o que pretendo esquecer. Apenas quero que o meu ser seja purificado. Sinto que entras no meu banho... Abraças a mim... Beijas meu ombro antes de encostares a tua cabeça. Assim ficamos quietos e mudos a sentir a água cair sobre nós. Levantas teus olhos para os meus... Sinto como o teu ser me inunda de mágica divindade. Sinto a pureza do teu corpo no meu... Imaginação... Apenas e só isso. Nada é real... Mas no meu pensamento consigo sentir a tua pele contra a minha... Os teus braços em torno de mim... O descanso que sentes quando a tua cabeça se aninha em meu ombro... O teu sorriso... Tudo... Tudo é ilusoriamente real... Visto-me. Retiro do armário a máscara que insisto que me acompanhe diariamente. Vejo o pó que sobre ela caiu nestes dias que isento esteve meu ser da sua racional protecção. Olho com alegria... Tantos dias a ser Eu Mesmo. Limpo-a com um cuidado singular... Como se de um objecto valioso se tratasse. Experimento-a. Vejo que continua a assentar em meu rosto como sempre o fez. Contemplo-me. Sorrio. Retiro-a novamente. Vou escrever. Tenho de escrever. Com tua constante presença a meu lado não sinto a necessidade de a envergar. Ostento o sorriso do meu próprio eu. Receio. Receio ser quem sou com quem não sinto que seja merecedor. Mas sinto que me abraças... Sorris... Sorrio... Beijas meu sorriso... Sinto os teus lábios trémulos de felicidade. E nessa altura tudo faz sentido. Eu Faço sentido. Eu sinto ser quem sou. Eu sinto... Eu sou.

domingo, 2 de agosto de 2009

Sem ti...


Sem teu ser maior nada mais sou que uma flor enegrecida pelos sonhos desfeitos que ao sabor do vento roça o arame farpado da vida.

Irreal?

Afio o aparo da minha caneta o mais que consigo. Em aguçado estilete se torna na minha mão insegura pelas emoções que ostento. Sinto o teu ilusório abraço com que me embalas o ser, fruto dos meus sonhos impossíveis, distante... Friamente Diferente. Vejo o arrependimento em teus olhos pela forma como antes me olhavas, sorrindo, directamente para a minha alma e agora baixas o rosto. Resignado... Resignado por uma ilusão que criei em mim. Resignado pelo sonho que sonhei tantas vezes acordado quieto em teus braços embalado em teu sorriso... Dependente de nesses sonhos me sentir puro. De conseguir sorrir. De voltar a sentir quem sou. De sonhar num sonho. Porque a dependência também tem a magia quando há respeito. Porque é natural sentir dependência de alguém quando gostamos dela. tal é natural o medo do desconhecido... O receio pelo futuro... O não querer sentir a pequenez do nosso ser. O fugir... Memórias. Meras memórias virtuais que nunca existiram mas presentemente reais e verdadeiras foram. Senti... Senti o toque da ponta dos dedos do sentir do teu ser a cada caricia que na minha face fizeste viver. A cada beijo inexistente que trocávamos a luz das velas das emoções que desprendidas deixamos soltar do mais fundo do nosso ser. Senti... Sinto-te a meu lado. Aninhas-te encostada a mim. Fechas os olhos. Penso que sonhas. Vejo-te sorrir mas desconheço agora se esse sorriso e meu. Se o teu sonho e o nosso. Sei que não. Sei que em mim apenas criei uma ilusão de cores e emoções vivas. Irrealmente real. Falsamente verdadeira. Mas... Sempre terei o teu sorriso em mim guardado nas chuvadas de verão... No cheiro da terra pura ainda molhada pelas lágrimas de todos os sonhos perdidos vagueiam na eternidade do meu ser.

sábado, 1 de agosto de 2009

Palavras

As palavras. A entoação das palavras. O seu significante e significado. À distância do meu sentir sinto o asco. A pureza de cada letra que cada palavra forma confere-lhes sacralidade... Divina essência pelo luto carregadas pela forma ímpia e desumana como são esgrimidas. Maquiavélica edificação. Quando as palavras tudo são. Cores, sons, sal, vibrações, vida, sentimentos, emoções e sentidos. As palavras tudo são. No seu todo acabam prostituídas nos lábios de muitos que as usam para a satisfação de seus instintos mais primordiais... Negam-lhes a luz que exibem... Lançam-nas no abismo escuro da negação da sua existência. Matam o sofrer de quem sente a pureza de falsidade imaculada. Rasgam seu ser... aniquilam sua sonoridade... seu sentido. mundo desconexo de sentir este em que vivo. Palavras... como as sinto em mim. como as consigo tocar... não são meras palavras... são esculturas de mim... de instantes de desencontro infeliz feitas. Vejo o altar de meu sentir mais puro profanado a cada palavra não sentida que é proferida despida de sentido e de sentimento. Cada palavra que verdadeiramente sentida torna esse instante, no sentido de ser, algo de mítico... sublime... Irrepetívelmente irrepetível... com todo o sentir do nada que sou e do tudo que quero ser