Fado
Calo meu silêncio num grito de uma imaginária guitarra vibrante em mim. Mil sons de outros tantos tons ecoam à desgarrada por toda a caixa de ressonância em que se tornou meu ser. Atinjo os tons ineditamente inaudíveis das cores de tonalidade invisível. Cada simples arranhar das cordas, por mais suave que seja faz, estremecer meu mundo com uma beleza apocalíptica. Todas as notas em mim existem. Continuamente a afino para que atinja o vermelho fogo do pôr de sol prometido de verão, numa promessa de um dia de calor, que ainda desconheço se alguma vez se tornará realidade. Persisto em desafina-la. No som rude e desconexo existe também a beleza apelativa de tudo o que não está padronizado como belo. Tento conter... Controlar-me... Resistir ao paradoxo que palpita em mim. Não resisto em divagar desprendido da vontade de me encontrar. Assento novamente a mão sobre a guitarra de mim com intimidade calorosa. Sinto na ponta dos meus dedos o calor gélido das cordas que me fazem vibrar a alma. Percorro a sua textura de sonhos feita... Na acuidade visual de uma cegueira sobre humana tudo vejo em mim. Não temo ver. Temo o que nunca irei ver. Em desafio, neste constante desafinar afinado. vou sentido tudo o que em mim vive. Tudo isto existe, por vezes triste... Tudo isto é o meu fado.


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