Fiat Lux
Acordei calmo. Muito calmo. Senti que a noite em sua misericórdia limpou meu pensamento. Sinto em cada fragmento de mim uma paz interior inenarrável. Pensava que dias de destruidor desespero se sucederiam tomados pelo vendaval que ontem em mim sentia. Dies irae... Medito na força destas palavras... Sinto a pungente violência de cada uma das letras que constituem seu todo. Dias de fúria... Não fúria como sinónimo de raiva mas de furioso desespero de mil tormentos feito... Reflicto sobre o requiem dos sonhos perdidos que ontem em meu ser ressoava. Penso como mudei numa noite entregue à consciência de um inconsciente sentir. Que se terá passado. Que me terá tocado em sorte agora. Acordei com clamor traduzido num grito ensurdecedor... fiat lux... Ouvi dentro de mim. Todo eu estremeci. Sem saber como explicar o que sentia nem os mistérios que a noite, minha confidente de longa data, a coberto de sua imaculada escuridão lançou sobre o meu espírito. Terei em meu sonho encontrado o meu renascimento? O Génesis?... O inicio que buscava? Não consigo vislumbrar respostas... Apenas questões... Muitas mais questões... Mas sinto que encontrei a alma mater. O inicio. A nascente do meu rio que entre as folhagens do desencontro se escondeu de mim. O enredo mais adensa-se quando penso nas poucas horas que tenho sentidas como mal dormidas. No entanto, na estranheza de um dia que se revela em harmonia sinto uma frescura pouco habitual. Não me sinto cansado. Nem penso no trabalho. Estou em paz comigo. Encontrei-me! No temor de Dies irae acabou por se ouvir Fiat Lux.


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