sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Nostalgia

Sinto-me acometido por um sorriso carregado de sentida nostalgia. Sinto-me tremer. Sinto as palavras que a minha mãe me costumava dizer. Lembro. Relembro o conforto do seu colo quando pequeno me confortava os desaires da vida. Ou do seu riso quando me via nas minhas macaquices. Os das quedas próprias de pardais de asas jovens que ainda procuram descobrir as sensações dadas pelos ventos da vida. Tantas memórias. Lembro tudo. Saudades tenho dos raspanetes por na primária não querer estudar ou apenas fazê-lo em cima dos testes. Ou das suas insistentes e infrutíferas tentativas de mudar a minha letra que de médico nada tinha. Convenceu-se que a letra era um caso perdido. Personalidade dizia-me ela com um sorriso malandro. Reconhecia-me inteligência. Puxava constantemente por mim. Lembro-me como aos três anos já conhecia letras e juntava silabas. Ou enquanto ela dava explicações eu ia memorizando os mistérios de Bocage, Luís Stau Monteiro, Camões e tantos outros. A ironia que ela usava por vezes... A pedir-me para explicar aos seus explicandos com infantis quatro anos o que era o locus horrendus.. Ou tantas outras duvidas próprias da literatura bocagiana... Ou para recitar o auto da barca do inferno. Tantas... Tantas memórias.. Uma guardo com particular interesse... Como cheguei a acordo com ela para aprender a tabuada do um do dois e do três em troca de um carrinho. De como me senti mal por tal ter feito e em meia hora ter aprendido toda a tabuada... Do um ao nove. Mas não recusei o carrinho... Ou como não criticava as minhas composições abstractas que roçavam a loucura de uma imatura maturidade. Como até as incentivava. Orientando-me. Indicando um caminho possível quando sentia que tinha atingido um eventual beco sem saída. Ou das palavras soltas que trocávamos. Ou como ainda novo chega perto de mim com uma caixa de preservativos. Como me ensinou o que era o respeito. O verdadeiro sentido de tantas palavras que hoje em dia parecem vulgares nos lábios de tantas pessoas. A eternidade da minha finita existência marcada estará pelas saudades. Tanto ficou por dizer. Muito mais por aprender. Tanto dela guardo em mim. Tanto sinto que com ela ganhei. Tanto agora sinto que perdi. Tanto sinto que lhe devo. Não apenas a vida que em maternal ventre gerou mas grande parte de quem sou.