Raiva
Calo o pensamento por uns instantes. Leio com os olhos toldados pela raiva, as palavras dos falsos profetas do sentimento que teimam falar da sua obra como exemplo. Como ousam? Como podem? Como?... Criminoso acto de falar de sentir nada sentindo. Exprimem detalhadamente sentidas emoções que no seu ser não vivem. Não apenas amor mas tudo o que pode afligir a nossa mais pura demonstração de humana existência. Tomam como sua a perda dos outros. Descrevem cada expressão, cada sorriso cada lágrima com um detalhe, com um rigor próprio de uma neurocirurgia. Em suas mãos guardam vital poder. Com uma frieza gélida de entidades divinas vão retalhando e dissecando o ser maior que em nos vive sem sentir um tremor na mão que segura o bisturi. Rasgados elogios são tecidos. Prémios entregues. Aplausos. Livros vendidos. Atingem o panteão dos deuses da escrita envoltos na bruma da mentira edificada. A cada palavra lida sinto todo o meu sentir entregue a maior oferta numa qualquer encadernação. Entregue a um altar sacrificial de vergonha. Fecho os olhos. Meu ser pela cegueira atingido é. Largo o quadro inacabado de meu ser. Perdida sinto pontualmente a vontade de pintar as letras do que em mim vive pois outros escrevem não sentindo o meu sentir.


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