quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Navego distraído sobre o empedrado geometricamente irregular que piso com cuidado para não acordar da dormência a que se encontra olvidado. Noto como sobressai a rouquidão seca e pesada da voz com que me conta todas as passadas de fria indiferença que sobre ela os ecos pairam ainda apesar de já ao pretérito prefeito pertencerem. Divago na fluidez de estagnar o pensamento das tantas palavras de sentimentos diferentes de testemunha muda que se torna numa babélica cacofonia portadora de solenidade suprema de missal. Um requiem... Um requiem ao engano das palavras sentidas que todos os dias dispersas são no infinito. À noite, no silêncio da densa bruma do invisível sentir, as mágoas de quem as escutou condensam-se sobre a superfície gélida fazendo surgir todas as lágrimas que por orgulho não foram vertidas. A indiferença que cada fragmento de rocha demonstra durante o dia esbate-se no reflexo sentido de emoção da lua sobre cada gota nelas contida no nascer do sol... Apenas a cegueira que assiste a nossa humana condição impede-nos de contemplar o que diante dos nossos olhos insistimos em negar existir.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Pranto
A noite sucumbe num pranto lívido sob o estoque do amanhecer sombrio pleno de claridade prometedora de mudanças. Inundada pela luz doentia de uma claridade que anuncia a condensação das emoções que me faltam nas palavras tomo como guardião a memória das suas vivências. A folha de papel que jaz imaculada diante de mim exige que o misericordioso aparo da caneta do meu pensamento declame sobre ela todas as palavras que esquecidas teimam em fluir.
Perdida... Perdida a manhã aguardo que chuva redentora já prometida, liberte o esboço das letras que já tarda. Bela é a chuva que se liberta com o desprendimento variável qual reflexo inantigivel da minha vontade.
Perdida... Perdida a manhã aguardo que chuva redentora já prometida, liberte o esboço das letras que já tarda. Bela é a chuva que se liberta com o desprendimento variável qual reflexo inantigivel da minha vontade.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Diluir
Amanheço mais uma vez na praia vazia de mil sons etéreos preenchida. Deitado na areia escuto o grito de liberdade contido no odor do sol nascente. Gélido desconforto de satisfação plena em mim faz vibrar todos os pontos do meu corpo num tremor torpe de frio condensado. Na bruma densa diluo meus pensamentos matinais de uma ausência por mim não decidida. Ahhh... Nestes poucos momentos de desconforto total, sinto-me vivo. No paradoxo do meu ser maior procuro no desconforto e no desagradável experimentar sensações que me escapam. Como odeio o frio, no entanto, nesse elemento disruptivo do meu bem-estar sinto mil estímulos indescritíveis. Meu pensamento deambula por nas novas vivencias sensoriais com uma ânsia indescritível, como se uma fome insaciável o habitasse. Corro o risco de passar por diferente... Problemático... Estranho... Mas... Não estranho... Critico... Critico que por medo não tenta... Não faz... Não sente... Não sonha... Quem por medo morre não vivendo.
domingo, 22 de novembro de 2009
Breu
Vou entardecer na praia apagando a luz negra dos pensamentos que percorrem a floresta sombria da cidade que me circunda. Imerso na imensidão transporto-me de encontro a ondulação violenta que as nuvens densas aparentam recortadas no horizonte que distante sinto divinamente próximo. Algumas surgem dispersas pelo firmamento quais pegadas erráticas de alguém que insiste em seguir um caminho sem rota traçada. O dia termina sem que o sol, que se afunda longe da vista, de um ultimo sinal de sua grandeza apaziguadora da escuridão. Esqueço temporariamente o frio que surge envolvido pela escuridão, que se abate agora rapidamente, sinto-me, no entanto, ser abraçado pela extensão gélida do céu com uma candura inebriante. Detenho-me divagando pelo horizonte sem tempo finito, fixando o pontilhado das bóias sinalizadoras que em mim tomam uma aura de beleza divina. Na penumbra imaginando tudo o que se esconde nos meus sonhos de breu vestidos.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Rever
Tenho saudades do Verão e do calor. Do calor húmido. Do calor seco. Do calor. Agora apenas o sol resta qual reminiscência da estacão ida. Quando olho para o horizonte relembro os fins de dia onde o céu parecia estar em chamas anunciando a promessa assegurada de um dia vindouro também quente. Tal era o ardor com que o sol se expunha que se sentia no próprio ar uma omnipresente e inatingível sensação de densidade como se por magia tivesse adquirido consistência de um líquido traindo seu aéreo sentido de ser. As memórias do conforto tépido percorrem agora meu espírito que se encontra enregelado. Avalio as hipóteses que se prefiguram plausíveis, excluindo a partida todas as que envolvam clamar por uma mudança de tempo. Penso como seria agradável hibernar. Baixar o meu nível metabólico para um patamar quase imedível, reduzir os batimentos e dormitar todo um inverno que pretendo ser breve.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Limites
Navego num mar de eufemismos que divagam todos em torno do mesmo. A auto critica por muito cruel que seja surge ao tocar no horizonte do meu ser como limitada e limitante. Deslocado desenquadrado desfasado desadequado assíncrono diferente paradoxal caricato. Tantas mais palavras escuto que apenas pretendo o silêncio ruidoso do movimento do dia em plena laboração.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Reformular
Na recusa ao pensamento tacteio os reflexos da minha medíocre condição. Não penso. Rejeito em negação constante todas as palavras que não quero entalhar mais fundo no meu peito. Já me bastam o sentir dos espectrais fantasmas das palavras que em surdina me enceram. Por vezes sinto-me num cair de pano de uma teatral produção que em constante digressão vive sem público. Ridículo. Funesto, depressivo poderá pensar quem ler estas palavras. Prefiro na sapiente condição do meu próprio sentir a verdadeira definição da terminologia que me assiste. Resumo numa palavra critica. Critico-me num querer sobre a esperança edificado de conseguir atingir a mudança na minha maneira de ser. Despreocupar-me. Ser insensível. Indiferente. Mesquinho, fútil. Ser deixando de ser quem sou crescendo no sentido de uma regressão disruptiva a tudo o que acredito bem sei mas pelo menos no chegar desse instante seria feliz. Deixaria de necessitar uma mascara para esconder o esgar de dor da forma como me sinto sufocar.
domingo, 15 de novembro de 2009
Fugir
Sentia-me sufocar entre quatro paredes espessas de ansiedade incontida feitas. Não suportei a pressão vigente que triunfante me arrastava para a melancolia soturna com o aproximar da hora que indica o fim de mais um dia. Tudo larguei e dirigi-me a praia já noite. Lembro-me de no caminho ser acometido por tremores e premonições de indefinidos resultados. No silêncio todos os males tomam os contornos disformes da sua realidade.
sábado, 14 de novembro de 2009
Vento
Rasgo o vento frio da noite com o calor do pensamento que habita todo meu ser imerso na cacofonia disforme da cidade, que teima em não dormir. No caos envolvente encontro o caminho do silêncio que aguardo. Começo a escrever ideias sem direcção definida no desejo convicto de me conferirem as coordenadas geográficas para onde pretendo que divirjam. Calada a ambição do encontro improvável limito-me a repensar alguns pensamentos dispersos em mim enquanto desespero, preenchido por um cansaço que roça a dormência, pelo transporte salvador de regresso a casa após mais um dia de indiferente indiferença. Medito nas consequências de trabalhar praticamente catorze horas de rajada sob o sol do stress incontido. Sinto em mim as queimaduras de tal cinzenta exposição num ardor renovado que me invade o espírito provocando uma deriva de exaustão feita. Tenho de abrandar. Não posso autoflagelar o meu ego impondo excessos desmedidos por falta de responsabilidade a que sou alheio. Raiva. Se não me sentisse tão desgastado por tantas horas consecutivas de em frente ao monitor e cercado por vagas sucessivas de papelada sentiria raiva. Mas o prejuízo em mim instigado conduz-me a uma passividade medíocre e incontida. Bocejo... Condenso num abrir de boca tudo o me leva a ver passar ao lado o que almejo. Sem ideias deixo-me levar pelo fim de mais um dia que já deveria ter terminado. Tento desfazer duvidas que polvilham o absurdo da minha contestação no entanto não elevo mais meu pensamento. Apenas almejo encostar a minha cabeça, fechar os olhos e sonhar com um solstício demasiado presente para ser esquecido.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Criticas
Algo de errado se passa. Tudo e rotulado. Se me queixo estou-me a vitimizar se me calo sou conformista se protesto sou bruto se emociono sou fraco se não confio sou idiota se confio sou estúpido... Tudo... Tudo que possa dizer rotulado é com um epitáfio de descrença e elevado à enésima potência do negativismo da critica ignorante. Porquê? Serei eu? Estarei a ver tudo de forma errada? Apenas os outros podem desabafar e protestar todos os infortúnios com a força plena da sua verdade? Este tipo de altitude tem o sabor de dogmatismo requentado no lume da opinião própria da cegueira ditatorial. A verdade pode ser algo subjectiva. A perspectiva com que abordamos uma situação e variável pelos olhos de quem a vê... Uns podem concordar tal como outros têm o direito de aplicar os ditames da dúvida socrática, apresentando a sua versão dos factos. Chama-se a isso individualidade. E todos temos o direito de expressar a nossa insatisfação para com algo pela liberdade que consagrada esta na nossa existência individual em sociedade plural. Mas... Porque me criticam então constantemente? Não tenho direito a opinião? Ao desagrado? A queixa? A tristeza? Ao sorriso? Que sobra? Em cada palavra me sinto mais deslocado de uma civilização egoísta e egocêntrica. Não me admira pois que cada vez mais as pessoas vivam em função dos objectivos individuais. As pessoas vivem apenas a sua verdade, sendo todo o resto as reminiscências evidentes da surdez de uma consciência colectiva condenada a desaparecer. Antes dizia-mos respeitar para ser respeitado... Actualmente degeneramos numa regressão imposta de desrespeitar para ser respeitado. Criticando os outros, arrastando tudo em sua volta para critica destrutiva apenas alimentamos o nosso ego com um visível esboço de um sorriso de inumanidade.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Neblina
A neblina densa que se abate sobre a cidade refracta a luminosidade projectada por todos os pontos de luz conferindo-lhe uma aura mística de diferença. Os recortes das formas tornam-se vagos como se diluídos no ar denso tomassem nova consistência nada concordante com a realidade que natureza os abençoou. Caladas as humanas construções perdem-se no horizonte agora próximo, tornando a cidade grande num mero aglomerado disforme de poucos prédios dispersos. Deambulo pelas ruas inundado por uma mistura de sentimentos contraditório. Sinto uma alegria transbordante por sentir novamente na minha face a memória da humidade fria do nebuloso contacto que apenas em tempos idos foi sentido. No entanto, não deixo de sentir um desconforto pelo frio que se nota já ter assentado a sua vontade de se fazer ouvir, transformando em meros vultos as remanescerias da ideia de um solarengo bem-estar. Não deixo de pensar nos conteúdos que se escondem no nevoeiro, qual poema que numa ânsia incontida vai sendo lido rima a rima, saboreando com avidez cada palavra por se sentir em cada sentimento uma sincera identidade. Sei o que se esconde... Sei o que existe... O que irei ver de facto mas no mistério do nevoeiro tudo pode ser refeito, a realidade, por vezes sombria, toma nova luz... As formas cores e texturas entregues são a imaginação incontida de quem ousa sonhar.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Acordar
Acordo cedo. Deixo-me ficar quieto ouvindo o ruído que votado ao esquecimento da nocturna penumbra volta a surgir no horizonte anunciando a chegada de mais um dia. Lentamente toma forma de uma densa neblina transparente que tudo imerge, arrastando para o seu interior o silêncio que, anteriormente reinava em triunfante presença, jaz agora derrotado pelo seu oponente. Na rua o frio faz-se sentir com mais intensidade, levando as pessoas a tritar quais folhas que penduradas numa arvore tomada pelo vento. Não se vêm sorrisos. A alegria parece ter sido rasurada das faces, sendo agora meros expositores das múltiplas formas da dormência imposta por Morpheu. Conduzido por uma sisudez trôpega deixo-me ir ate a próxima paragem. Penso no conforto do solarengo calor que numa estacão ida reneguei, reclamando da ausência da tonalidade cinzenta no firmamento em sintonia com o meu estado de espírito. Recolho as ideias de volta ao ponto de partida. No início de mais um dia sinto a perigosa proximidade de mais um fim de dia que nunca mais chega. Desejo apenas fechar os olhos e dormir. Já não merece gritar pela justiça ou boa fortuna visto tudo o que de mim parte tem a vaga aparência do queixume hipócrita. Ergo o meu queixo... Endireito as costas caminho de passo decidido pleno de inabalável confiança exibindo um sorriso de quem tudo domina. Exibo a minha mascara. Sinto a calma voltar ao meu peito. Agora já não sou eu mesmo. Sou a mascara do que dou a conhecer de mim aos outros. Sou a confiança indiferente... sou... Sou tudo o que não quero ser mas tenho uma inveja envergonhada de não o ser. Contradigo o que digo... Afirmo confirmando a aceitação do que nego. Sou a representação humana do paradoxo. Sou somente eu. Abro mais um pouco o meu sorriso. Olho para as pessoas de alto com desdém quando por trás da mascara sinto-me sufocado por um miserabilismo interminável.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Repensar
Abstenho o meu pensamento na sua génese. Ocupo toda a minha energia e capacidades com uma imersão total em trabalho. Elevo o ritmo. Estico os limites das minhas humanas capacidades para lá das fronteiras improváveis que na minha mente existem. Evito. Desvio... Nego... Tento... Tento relegar para segundo plano tudo o que demais contido esta na minha vida. A questão fulcral e que nem sempre estou a trabalhar, nem sempre me embrenho no frenesim frenético da sobre produtividade. Os entretanto que são tantos arrastam-me para o inevitável. Estarei assim tão errado? Serei assim tão idiota? Estúpido? Cego? Porque?... Tento divagar em questões banais que não domino, como a carga física exercida sobre as asas de um avião, aplicando os conhecimentos que fui apreendido ao longo da vida. Tento de uma forma lógica e usando meramente o observável dimensionar varias problemáticas... Tento... Não consigo. Invariavelmente voltam as questões. Voltam as ilusões. Irrito-me. Culpo-me. Odeio-me. Convenço-me a mudar minha maneira de ser. Mostrar que consigo dominar os meus sentimentos e calar os gritos que a minha alma brada em ansiedade desesperada. Tento... Inexoravelmente caio se volta a realidade que assumo como minha. Perante a verdade dos factos apenas posso dizer que a culpa e minha. Contesto novamente a resignação imbuído pela raiva que pura me faz cerrar os dentes e olhar friamente para algo indefinido. Esqueço. Tento... Tento esquecer tudo o que penso que correlacionado esteja com tudo o que quero apagar. Revejo sem ler textos não publicados. Tenho no entanto a noção clara e presente que os meus textos mudaram de cor. Já não estão pintados com o negro do meu sangue que flui da ponta do aparo... Agora sinto-os tingidos com o vermelho da raiva. Nesta transição de cor encontro-me entre a negação e a aceitação embalado por um conformismo descontente com sabor a rebelião. Vivo... Vivo sobrevivendo ainda na contradição que me pauta as notas que vão sobrando na minha partitura que, desconexa, preenche com total nitidez as falhas do maestro que sou.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Madrugada
No negro breu da noite, de nuvens ameaçadoras encoberta já caída, piso a areia da praia que apenas a mim se entrega nas confidências próprias de amigos de longa data. Sem pejo de mostrar a verdade que em si encerra, em mim solta livres todos os ensinamentos que esconde com vergonha quando à luz exposta. Despida de complexos segreda-me a calma que foge de forma intrépida. Mesmo toldado pelo frio áspero, que desce rápido pelo meu ser, mantenho sem receio a minha inflexível posição. Apesar de desagradável, o vento que se aproxima sorrateiramente tomando a tonalidade opaca da ofensa, é subitamente transformado num companheiro de conversa de horas tardias de fim de dia. Pouco vislumbro. Mas... Mas tudo oiço. As palavras que soltas foram por tantas outras pessoas, no vento se arrastam eternamente no agridoce frio que as encerra, a mim se dirigem no encontro de um desencontro partilhado. Tacteio também as palavras que dispersas foram nas promessas vãs enterradas no areal que as testemunhou, reconhecendo em cada letra a vergonha da mentira nelas marcada. O mar reconhece-me e faz mostrar seu descontentamento pela minha aparente, mas falsa indiferença, libertando uma pontual onda com maior intensidade sonora como clamando o seu quinhão da minha concentração a si reservado. Acalma-se, fazendo revelar a sua alegria na espuma da ondulação que rebenta com desprendimento sobre os grãos de areia que aguardam em desespero seu beijo transportador. Embala-me no seu som suave como tantas vezes já o fez com uma paixão renovada. A lua minguante olha-me de alto com desdém ciumento de quem se sente traída pela intimidade perdida e por outros entretanto partilhada. Calo seu desconforto encarando-a de frente sem desviar meu pensamento por um milionésimo de milímetro, inicialmente de olhos abertos de compreensão carregados para posteriormente os cerrar lentamente, permitindo que seu brilho acaricie placidamente a pele fria da minha face sem qualquer impedimento... Num intervalo não agendado das nuvens faz-se reflectir no espelho aquoso que a aceita. Tanto sinto. Não deixo de sentir um tremor pela aragem que agora mais inquieta se mantém presente aglutinando tudo o que ao meu redor me sussurra. Totalmente emerso na aventura dos sentidos de quem se sente preenchido pelo sentimento de estar vivo sorrio qual brinde à felicidade de quem esqueceu por instantes os gritos lancinantes do desencontro.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Teia
Desfio lentamente o fino fio das palavras desconhecendo o caminho que estas tomarão no desenrolar das emoções que sentidas se vão perfilando diante de mim. Não escolho um contexto ou uma ideia que sirva de guia a todas as outras. Apenas vou tecendo pensativamente a teia em que enlio o meu sentir de cada dia sem intenção de chegar a uma resposta salvadora. Apenas vou libertando as palavras que me invadem clamando por conseguir ter a nobre arte de desenhar a verdade que tentam exprimir algures no firmamento que lhes destino sem complexos num fluir que desejo ser constante e temperado pela inconsciência. Em mim vou continuamente rescrevendo cada pensamento na vontade de esperança pejada. Cada frase assim exposta ganha a sua própria palpável consistência na inconsistência de um simples filamento de letras no todo que a forma. Todas as palavras cruzam-se nos nós do sentir mais profundo da minha teia conferindo-lhe uma estrutura de simetria somente perceptível a quem olha com os olhos de uma alma pura. Imaculada a minha teia capta o meu sentir mais sincero condensando-o só a forma de lacrimal orvalho . Não remendo ou corrijo as imperfeições geométricas que contemplo conforme vou percorrendo toda a sua dimensão. Admiro com sincero regozijo como incorrecta pode ser na total ausência de rima, métrica ou mesmo conteúdo. Nesta teia eu perco-me, percorrendo cada milímetro sem nunca regressar a um ponto que seja onde já anteriormente tenha passado, pois em cada subtil e incondicional erro, intencional foi minha escrita ou a minha falha. Assim foi tecida de dentro de mim. Qualquer correcção por ténue que fosse a perverter estaria o sentido do sentir com que foi criada. Na ausência de inspiração ou tágide apenas o sentir de quem sou e suficiente para um novo fio lançar no infinito virtual onde transcrevo o meu sentimento. Na minha teia preso estou... na minha teia consigo ser tudo o que sou. Uma simples aranha que tece um fio de palavras, ao sabor do seu sentir, esquecida num qualquer recanto da vida.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Falta
Faz-me falta o tempo em que o tempo não escorregava pelos ponteiros de uma forma abertamente lenta, carregando em si uma aura sombria. O seu arrastar de amargo travo a estagnação preenche os segundos a um ritmo dissonante com a minha vontade. Na minha vontade de criança desejava que o tempo fosse o mais lento quanto possível, para que na inocência da minha meninice pudesse saborear mais um instante que fosse de brincadeira. Agora, na consciente lógica de adulto ambiciono que o tempo acelere a sua cadencia de forma que consiga regressar o mais rapidamente possível a dormência inconsciente que auguro. No nada que me sobeja do dia a dia, indiferente não me torno as passadas de síncronos pois na indiferença em que vivo, nada mais quero que ultrapassar mais um dia. Ando cansado de me sentir preso entre quatro paredes, medido... marcado... Rotulado... Como se a minha existência fosse um simples código de barras numa mera etiqueta. Preciso de mais. Faz-me falta o respirar. O ver. O sentir para alem do que sinto. Faz-me falta o tempo para ser quem sou.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Confesso
Calo as palavras que não me interessam ouvir. Calo. Calo a culpa. Calo a verdade. Nego. Nego a responsabilidade. Nego o pensamento. Culpo. Culpo o fado. Culpo o destino traçado de tempos idos. Critico... Critico a cegueira. Critico a surdez... Arrependido... Arrependido da pena que não tenho. Arrependido... Pelo caminho que decidi trilhar no silêncio que me decidi criar e por todos os sorrisos que não sorri. Calo... Calado mantenho a culpa mesquinha de tudo o que me foi entregue e desperdicei pela minha cobardia medíocre. Tudo e todos culpei quando na mais pura e sincera confissão o verdadeiro culpado eu fui... Eu sou. Eu! Apenas e tão somente eu. O arrependimento corrói agora meu espírito. Imponente. Implacável. Impiedoso. De forma omnipresente faz sentir sua fúria colérica. Arrasta-me no turbilhão da sua vontade irreprimível. Aponta-me o dedo por cada segundo que deixei entregue a consciência de me trair a mim próprio. A tudo o que me permiti perde de forma condescendente. Olho de frente... Ergo o queixo. Sorrio... Rio um riso que não e meu. Escondo. Omito. Finjo... Aparento ser quem não sou na segurança da minha mascara. Mas meu sorriso esconde as lágrimas que não verto. Esconde a tristeza que não mostro. Esconde... Esconde-me. Protege-me... Pelo menos durante umas horas do dia sou feliz consciente esquecido da minha omnisciente tristeza. Finjo... Finjo ser poeta e escritor... Rio-me perante o ridículo da minha ambição. A falta de genialidade que assisto transpira em cada palavra que largo a espaços esquecido da minha ignorante condição de mero leitor que um dia ambiciona ser meritório escriba sem escrever saber... Traí o Mestre... De face rubra pintada de vergonha contemplo como caricatos são meus textos onde tudo está ausente menos emoção. Desejo... Desejo rescrever o passado nas linhas que não escrevi e deveria ter feito nas linhas intermédias do limbo a que votei a verdade. Ditatorial acção de um hipócrita plenipotenciário que na sua cega ambição desejou atingir o estatuto quase divino... Ao inferno me ostracizo sem revolta assumindo tudo. Mas não esqueço. Não quero esquecer... Tudo o que um dia poderia ser meu. Tudo. Um sorriso. Um olhar. Um beijo. Um abraço. Um por do sol. Um solstício. Calo gritando tudo o que me trespassa a alma reduzindo-a uma inquestionável inexistência. Calo a revolta que de mim tenho. Calo o ódio que de mim sinto. Calo... Calado, em meu silencio sinto a culpa da minha ausência. Calado, em meu silencio tento encontrar o inicio do reviver. Calado, em meu silencio tento encontrar motivos para perdoar meus capitais pecados. Calo... Consinto. Admito. Confesso.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Chuva
Acordo para mais um dia na lembrança de ter adormecido ao som da chuva que batia forte nas janelas. Relembro como senti um desejo súbito de sair a rua sem qualquer casaco e deixar-me envolver na por cada gota que se precipitava decididamente. Não que cobardia tenha falado mais alto mas no conforto artificialmente tépido que sentia fui acometido um comodismo intenso. Tinha o desejo de me afundar... De me diluir na chuva dispersa batida por rajadas de vento erráticas e inconstantes. Queria... Queria a redenção reencontrar na pureza frágil do contacto de uma lágrima do céu com a superfície de meu ser numa tentativa, apesar de conscientemente impossível, que pelo menos uma dessas gotas penetrasse meu espírito e apagasse o fogo a fornalha da minha memoria... Mantive-me quieto. Mudo. Com as luzes apagadas tentei separar o som que cada gota fazia, separando-a das demais pela singularidade da sua sonoridade. Assim mantive minha atenção desperta entre a consciência e a dormência que já se fazia sentir. Na escuridão da noite já ida a sinfonia que me foi dada entranha-se em mim elevando-me na no breu envolvente. Assim adormeci.
domingo, 1 de novembro de 2009
Regresso
Vim novamente a praia. Escutar os ensinamentos murmurados que libertados são a cada onda que se desfaz sobre a areia. Não deixo de me questionar sobre a sazonalidade da paixão pelo mar que algumas pessoas sentem. Com o céu carregado de cinzento este velho companheiro mostra a sua faceta mais humana e sincera perdendo a cor aberta e jovial de uma estação mais solarenga, ficando de uma transparência carregada de sentimentos. Escuto com uma atenção demorada a cadência desprendida e torpe com que mantém o fluxo constante de sons mágicos vindos do fundo de uma consciência que guarda em si, afastada dos olhares indiferentes, a memoria colectiva que nos escapa. Talvez seja esse o motivo que leva o mar, de uma forma humilde e contida, a revelar o seu verdadeiro brilho condensado numa sabedoria imperceptível. Estou distante. Deixo-me flutuar no seu regaço, embalado no ritmo orquestral. De olhos bem fechados sou transportado para lá do horizonte sem pensar ou questionar os motivos. Sinto somente uma vontade incontida que a sinfonia que me envolve neste abraço sentido não pare jamais. Abro os olhos interrompido pelo grasnar troçante de uma gaivota passageira que me avisa da subida da maré. Cerro novamente os olhos. Tento voltar para onde estava mas detenho os olhos da alma no recorte difuso da serra de nuvens rasurado contra o céu. Questiono-me se a minha atitude ao rasgar a pureza imaculada da areia, pelo mar feita, não terei sido egoísta, ao manchar a perfeição com as minhas pegadas erráticas. Desvio meu ser novamente para a ondulação. Sinto a paz fluir num equilíbrio instável a beira do fatal derrotismo omnisciente, na consciência que apenas neste breve instante de inconsciência tomo forcas para tentar voltar a quem sou.

