Acordar
Acordo cedo. Deixo-me ficar quieto ouvindo o ruído que votado ao esquecimento da nocturna penumbra volta a surgir no horizonte anunciando a chegada de mais um dia. Lentamente toma forma de uma densa neblina transparente que tudo imerge, arrastando para o seu interior o silêncio que, anteriormente reinava em triunfante presença, jaz agora derrotado pelo seu oponente. Na rua o frio faz-se sentir com mais intensidade, levando as pessoas a tritar quais folhas que penduradas numa arvore tomada pelo vento. Não se vêm sorrisos. A alegria parece ter sido rasurada das faces, sendo agora meros expositores das múltiplas formas da dormência imposta por Morpheu. Conduzido por uma sisudez trôpega deixo-me ir ate a próxima paragem. Penso no conforto do solarengo calor que numa estacão ida reneguei, reclamando da ausência da tonalidade cinzenta no firmamento em sintonia com o meu estado de espírito. Recolho as ideias de volta ao ponto de partida. No início de mais um dia sinto a perigosa proximidade de mais um fim de dia que nunca mais chega. Desejo apenas fechar os olhos e dormir. Já não merece gritar pela justiça ou boa fortuna visto tudo o que de mim parte tem a vaga aparência do queixume hipócrita. Ergo o meu queixo... Endireito as costas caminho de passo decidido pleno de inabalável confiança exibindo um sorriso de quem tudo domina. Exibo a minha mascara. Sinto a calma voltar ao meu peito. Agora já não sou eu mesmo. Sou a mascara do que dou a conhecer de mim aos outros. Sou a confiança indiferente... sou... Sou tudo o que não quero ser mas tenho uma inveja envergonhada de não o ser. Contradigo o que digo... Afirmo confirmando a aceitação do que nego. Sou a representação humana do paradoxo. Sou somente eu. Abro mais um pouco o meu sorriso. Olho para as pessoas de alto com desdém quando por trás da mascara sinto-me sufocado por um miserabilismo interminável.


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