domingo, 1 de novembro de 2009

Regresso

Vim novamente a praia. Escutar os ensinamentos murmurados que libertados são a cada onda que se desfaz sobre a areia. Não deixo de me questionar sobre a sazonalidade da paixão pelo mar que algumas pessoas sentem. Com o céu carregado de cinzento este velho companheiro mostra a sua faceta mais humana e sincera perdendo a cor aberta e jovial de uma estação mais solarenga, ficando de uma transparência carregada de sentimentos. Escuto com uma atenção demorada a cadência desprendida e torpe com que mantém o fluxo constante de sons mágicos vindos do fundo de uma consciência que guarda em si, afastada dos olhares indiferentes, a memoria colectiva que nos escapa. Talvez seja esse o motivo que leva o mar, de uma forma humilde e contida, a revelar o seu verdadeiro brilho condensado numa sabedoria imperceptível. Estou distante. Deixo-me flutuar no seu regaço, embalado no ritmo orquestral. De olhos bem fechados sou transportado para lá do horizonte sem pensar ou questionar os motivos. Sinto somente uma vontade incontida que a sinfonia que me envolve neste abraço sentido não pare jamais. Abro os olhos interrompido pelo grasnar troçante de uma gaivota passageira que me avisa da subida da maré. Cerro novamente os olhos. Tento voltar para onde estava mas detenho os olhos da alma no recorte difuso da serra de nuvens rasurado contra o céu. Questiono-me se a minha atitude ao rasgar a pureza imaculada da areia, pelo mar feita, não terei sido egoísta, ao manchar a perfeição com as minhas pegadas erráticas. Desvio meu ser novamente para a ondulação. Sinto a paz fluir num equilíbrio instável a beira do fatal derrotismo omnisciente, na consciência que apenas neste breve instante de inconsciência tomo forcas para tentar voltar a quem sou.