Trôpego
Sinto em mim um cansaço insustentável que atesta todo meu ser de uma insatisfação cujo sabor roça perigosamente o da cólera. A pressão crítica atingida conduz-me vertiginosamente a uma saturação que não consigo contornar pelo desenhar errático das palavras que traduzem o que na minha alma habita. Impele-me para uma emergente vontade de gritar bem alto tudo o que de mau ocupa a perturbação que me assola. Sou, demasiado cobarde para faze-lo reconheço... Cobarde... Esse termo correcto fustiga as minhas cações impiedosamente sem demonstrar qualquer interesses em declarar umas tréguas humanitariamente salvadoras... Não consigo... Falta-me a forca interior para extirpar ou somente afugentar a confusão sórdida que impera... Nem na pureza imaculada do som do silencio da madrugada a paz envolvente que todo o caos corrompe se entranha na minha pessoa... Tudo se agita constantemente como se o caótico existir fosse a minha imagem de marca ou obrigação à minha pessoa inerente. Acometido por uma insatisfação sombria clamo por justiça condensada num suspiro a calma que foge diante de mim zombando das minhas infrutíferas tentativas de agarrar os meus desejos. Penso ofegante em todas as pessoas que têm o mais importante e vivem esquecidas da sorte magna que as ilumina. Imune... Imunizado... Estéril... Esterilizado gostaria de ser, na cinzenta constatação de reconhecer ser impossível para mim tal hercúlea tarefa. Arrasto-me. Abomino o sentimento de felicidade que me toma por ter a forca de escrever e pontualmente encontrar as palavras. Relembro os dias em que as palavras catárticamente fluíam em mim imparáveis quais guerreiras irredutíveis no cumprir da sua missão. Pensava nesse momento na sorte sobre mim jogada... Julgava ter sido tocado por um dom superior que me acompanharia eternamente no vogar nos dias em que o invernoso estado de espírito tomava seu ditatorial lugar em meu interior. Bons tempos em que o tempo morto preenchido era por palavras que brotavam sem querer tudo querendo... Como por magia as letras... As palavras... As frases... Aglomeravam-se num atropelo trôpego. Palavras sentia que tinha a mais... Agora que nem palavras tenho em mim resta a meu espírito aguardar pelo dia que em mim sobrevive esquecido na crença dogmática que nunca chegará. O dia que voltarei a mim.


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