Possibilidade
Não perdi as palavras... Somente as escondi. Guardei-as no longínquo espaço onde os meus sonhos de negro sangue tingidos repousam mudos gritando a viva voz sua vontade imensa. Apenas como estrela guia de volta elas me sobeja a ténue chama da vela chamada esperança que crepita ameaçada por um definhar consciente que a envolve. Deixo os olhos semicerrados e escuto as confidências lúbregues que a noite me sussurra envolta no seu manto. Confesso minha desilusão pontilhada por silêncios fantasmagóricos nas reticências que antecedem o pavor de todas as conclusões que mais tememos. Na minha invisibilidade leio um alivio gelado temperado por uma sopro de cólera contida mas visceralmente profunda. Antes agora que o suplicio da derrota total interiorizo... Interiorizar o que? A letra do meu fado?... Já não clamo por justiça. Baixo os braços. Tombo os olhos na calcada irregular que na minha imaginação ostenta uma simetria perfeita. Como posso esperar algo... Como... Espectar pela possibilidade quando em meu peito palpita secamente toda a certeza condensada na realidade onde vivo... Transporto os meus pensamentos para outros caminhos. Os olhos pesados pelo cansaço teimam em cerrar-se com a insistência do vento nas árvores... Arrasta-se-me a consciência para o meu mundo. Fecho os olhos na dormência do fim de mais um dia indiferente na ânsia de voltar a mim nas poucas horas que não estou vigil.


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