Madrugada
No negro breu da noite, de nuvens ameaçadoras encoberta já caída, piso a areia da praia que apenas a mim se entrega nas confidências próprias de amigos de longa data. Sem pejo de mostrar a verdade que em si encerra, em mim solta livres todos os ensinamentos que esconde com vergonha quando à luz exposta. Despida de complexos segreda-me a calma que foge de forma intrépida. Mesmo toldado pelo frio áspero, que desce rápido pelo meu ser, mantenho sem receio a minha inflexível posição. Apesar de desagradável, o vento que se aproxima sorrateiramente tomando a tonalidade opaca da ofensa, é subitamente transformado num companheiro de conversa de horas tardias de fim de dia. Pouco vislumbro. Mas... Mas tudo oiço. As palavras que soltas foram por tantas outras pessoas, no vento se arrastam eternamente no agridoce frio que as encerra, a mim se dirigem no encontro de um desencontro partilhado. Tacteio também as palavras que dispersas foram nas promessas vãs enterradas no areal que as testemunhou, reconhecendo em cada letra a vergonha da mentira nelas marcada. O mar reconhece-me e faz mostrar seu descontentamento pela minha aparente, mas falsa indiferença, libertando uma pontual onda com maior intensidade sonora como clamando o seu quinhão da minha concentração a si reservado. Acalma-se, fazendo revelar a sua alegria na espuma da ondulação que rebenta com desprendimento sobre os grãos de areia que aguardam em desespero seu beijo transportador. Embala-me no seu som suave como tantas vezes já o fez com uma paixão renovada. A lua minguante olha-me de alto com desdém ciumento de quem se sente traída pela intimidade perdida e por outros entretanto partilhada. Calo seu desconforto encarando-a de frente sem desviar meu pensamento por um milionésimo de milímetro, inicialmente de olhos abertos de compreensão carregados para posteriormente os cerrar lentamente, permitindo que seu brilho acaricie placidamente a pele fria da minha face sem qualquer impedimento... Num intervalo não agendado das nuvens faz-se reflectir no espelho aquoso que a aceita. Tanto sinto. Não deixo de sentir um tremor pela aragem que agora mais inquieta se mantém presente aglutinando tudo o que ao meu redor me sussurra. Totalmente emerso na aventura dos sentidos de quem se sente preenchido pelo sentimento de estar vivo sorrio qual brinde à felicidade de quem esqueceu por instantes os gritos lancinantes do desencontro.


0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home