Chuva
Acordo para mais um dia na lembrança de ter adormecido ao som da chuva que batia forte nas janelas. Relembro como senti um desejo súbito de sair a rua sem qualquer casaco e deixar-me envolver na por cada gota que se precipitava decididamente. Não que cobardia tenha falado mais alto mas no conforto artificialmente tépido que sentia fui acometido um comodismo intenso. Tinha o desejo de me afundar... De me diluir na chuva dispersa batida por rajadas de vento erráticas e inconstantes. Queria... Queria a redenção reencontrar na pureza frágil do contacto de uma lágrima do céu com a superfície de meu ser numa tentativa, apesar de conscientemente impossível, que pelo menos uma dessas gotas penetrasse meu espírito e apagasse o fogo a fornalha da minha memoria... Mantive-me quieto. Mudo. Com as luzes apagadas tentei separar o som que cada gota fazia, separando-a das demais pela singularidade da sua sonoridade. Assim mantive minha atenção desperta entre a consciência e a dormência que já se fazia sentir. Na escuridão da noite já ida a sinfonia que me foi dada entranha-se em mim elevando-me na no breu envolvente. Assim adormeci.


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