Confesso
Calo as palavras que não me interessam ouvir. Calo. Calo a culpa. Calo a verdade. Nego. Nego a responsabilidade. Nego o pensamento. Culpo. Culpo o fado. Culpo o destino traçado de tempos idos. Critico... Critico a cegueira. Critico a surdez... Arrependido... Arrependido da pena que não tenho. Arrependido... Pelo caminho que decidi trilhar no silêncio que me decidi criar e por todos os sorrisos que não sorri. Calo... Calado mantenho a culpa mesquinha de tudo o que me foi entregue e desperdicei pela minha cobardia medíocre. Tudo e todos culpei quando na mais pura e sincera confissão o verdadeiro culpado eu fui... Eu sou. Eu! Apenas e tão somente eu. O arrependimento corrói agora meu espírito. Imponente. Implacável. Impiedoso. De forma omnipresente faz sentir sua fúria colérica. Arrasta-me no turbilhão da sua vontade irreprimível. Aponta-me o dedo por cada segundo que deixei entregue a consciência de me trair a mim próprio. A tudo o que me permiti perde de forma condescendente. Olho de frente... Ergo o queixo. Sorrio... Rio um riso que não e meu. Escondo. Omito. Finjo... Aparento ser quem não sou na segurança da minha mascara. Mas meu sorriso esconde as lágrimas que não verto. Esconde a tristeza que não mostro. Esconde... Esconde-me. Protege-me... Pelo menos durante umas horas do dia sou feliz consciente esquecido da minha omnisciente tristeza. Finjo... Finjo ser poeta e escritor... Rio-me perante o ridículo da minha ambição. A falta de genialidade que assisto transpira em cada palavra que largo a espaços esquecido da minha ignorante condição de mero leitor que um dia ambiciona ser meritório escriba sem escrever saber... Traí o Mestre... De face rubra pintada de vergonha contemplo como caricatos são meus textos onde tudo está ausente menos emoção. Desejo... Desejo rescrever o passado nas linhas que não escrevi e deveria ter feito nas linhas intermédias do limbo a que votei a verdade. Ditatorial acção de um hipócrita plenipotenciário que na sua cega ambição desejou atingir o estatuto quase divino... Ao inferno me ostracizo sem revolta assumindo tudo. Mas não esqueço. Não quero esquecer... Tudo o que um dia poderia ser meu. Tudo. Um sorriso. Um olhar. Um beijo. Um abraço. Um por do sol. Um solstício. Calo gritando tudo o que me trespassa a alma reduzindo-a uma inquestionável inexistência. Calo a revolta que de mim tenho. Calo o ódio que de mim sinto. Calo... Calado, em meu silencio sinto a culpa da minha ausência. Calado, em meu silencio tento encontrar o inicio do reviver. Calado, em meu silencio tento encontrar motivos para perdoar meus capitais pecados. Calo... Consinto. Admito. Confesso.


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