Neblina
A neblina densa que se abate sobre a cidade refracta a luminosidade projectada por todos os pontos de luz conferindo-lhe uma aura mística de diferença. Os recortes das formas tornam-se vagos como se diluídos no ar denso tomassem nova consistência nada concordante com a realidade que natureza os abençoou. Caladas as humanas construções perdem-se no horizonte agora próximo, tornando a cidade grande num mero aglomerado disforme de poucos prédios dispersos. Deambulo pelas ruas inundado por uma mistura de sentimentos contraditório. Sinto uma alegria transbordante por sentir novamente na minha face a memória da humidade fria do nebuloso contacto que apenas em tempos idos foi sentido. No entanto, não deixo de sentir um desconforto pelo frio que se nota já ter assentado a sua vontade de se fazer ouvir, transformando em meros vultos as remanescerias da ideia de um solarengo bem-estar. Não deixo de pensar nos conteúdos que se escondem no nevoeiro, qual poema que numa ânsia incontida vai sendo lido rima a rima, saboreando com avidez cada palavra por se sentir em cada sentimento uma sincera identidade. Sei o que se esconde... Sei o que existe... O que irei ver de facto mas no mistério do nevoeiro tudo pode ser refeito, a realidade, por vezes sombria, toma nova luz... As formas cores e texturas entregues são a imaginação incontida de quem ousa sonhar.


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