Calçada
Navego distraído sobre o empedrado geometricamente irregular que piso com cuidado para não acordar da dormência a que se encontra olvidado. Noto como sobressai a rouquidão seca e pesada da voz com que me conta todas as passadas de fria indiferença que sobre ela os ecos pairam ainda apesar de já ao pretérito prefeito pertencerem. Divago na fluidez de estagnar o pensamento das tantas palavras de sentimentos diferentes de testemunha muda que se torna numa babélica cacofonia portadora de solenidade suprema de missal. Um requiem... Um requiem ao engano das palavras sentidas que todos os dias dispersas são no infinito. À noite, no silêncio da densa bruma do invisível sentir, as mágoas de quem as escutou condensam-se sobre a superfície gélida fazendo surgir todas as lágrimas que por orgulho não foram vertidas. A indiferença que cada fragmento de rocha demonstra durante o dia esbate-se no reflexo sentido de emoção da lua sobre cada gota nelas contida no nascer do sol... Apenas a cegueira que assiste a nossa humana condição impede-nos de contemplar o que diante dos nossos olhos insistimos em negar existir.


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