domingo, 28 de fevereiro de 2010
Aparto-me da turbe irrequieta. O féretro de quem outrora foi alguém dorme envolto no desrespeitoso ruído truculento. Isolo-me e tento prestar uma homenagem solene conferindo-lhe o dom da minha mudez. Penso nas memórias que foram esquecidas quando a última resiliência de humana vida foi exalada, tombando por terra todos os sonhos não concretizados. A chuva precipita-se grossa e violenta. Bafejando tudo e todos com a dádiva da lembrança fria da mortalidade. Lembra-me a simplicidade agreste de quem nunca estudou. De quem mal sabe escrever as letras do nome mas que pela verticalidade elementar eleva-se acima de tantos ditos doutores portadores de tantos saberes. Escolástico deficit ultrapassado pela bondade. Quão cegos somos. Eu... Todos...
Daykara
Vim numa fuga imprevisível ao Alentejo. Relembro rapidamente todos os sons, cores e odores de umas raízes que não sendo minhas considero como tal. A origem da grande mudança em meu ser foi aqui. Longe do ruído disrruptivo e castrante. Pecado. Vejo diluir o pensamento no apregoar distante que viola a serenidade que busco. Corroída a sacralidade do que ambiciono apenas atingir o conceito ímpio do meu ser que subsiste no vento que entoa uma melodia já ouvida em tempos. Assumo palavras que não sendo minhas me fazem sentir privado de resposta. Rarefeito. Desfeito. Sufocado. Iluminado. Quem és tu Daykara? Anjo caído ou demónio erguido? As duas faces de uma mesma lua? A ancora da ilusão luminosa dos sonhos antagónica a uma realidade dogmática que tudo torna transparente? Em ti não li palavras. Li sorrisos... Li risos... li lágrimas.. Li a dor... Li a mágoa... A raiva... Li... Sentimentos... Emoções.. Puras! Vivas! Sentidas! Amarelecidas! Gritos no silêncio de uma solidão de alma. Sem qualquer travão ou receio. Sem o medo do julgamento. Com todos os nadas que tudo fazem soar como libertador. Tacteei as formas e as arestas dos contornos da palavra Verdade. Fiquei boquiaberto com tanto que absorvi. Remeti-me ao silêncio mudo gritando em mim a justiça ausente da enormidade de um sentir imaculado. Profundo... Luminoso... Sombrio... Sorrio. Sorrio tão somente por ver desenhadas as emoções, que constantemente procuro pintar, nas palavras dos outros. Não escrevo sobre o que os outros pintam. Cada um tem na sua paleta os tons com que vai exercendo o seu direito em sentir o seu ser. Abro uma excepção apenas... por ver em ti tantas cores de mim. Obrigado Daykara!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Dualidade
O ying e o Yang convivem mim, dividindo o meu espírito entre o céu e o inferno numa separação nem sempre exacta. Sigo pela vida de queixo erguido, de mãos dadas a eles sem lhes guardar rancor dos tropeções que pontualmente, numa regularidade assustadoramente banal, teimam em fazer acontecer, destruindo-me com a luz que por eles é gerada.
Sou um eclipse constante entre o sol e a lua. Em mim degladiam-se sem tréguas as duas luzes que inundam o mundo conferindo-me a complexidade simples de dois pontos antagónicos.
Por vezes sombrio sou... Rude... Cruel... Visceral... Odioso... Outras quantas luminoso... Simpático... À luz da minha consciência uso o principio do merecer... Quem, apenas quem Eu julgo ser merecedor do melhor de mim tem acesso a tudo o que escondo ao mundo. Penso no entanto qual a minha moralidade em julgar. Quem sou eu para decidir? O argumento de ser dono de mim peca por insuficiente. Apesar de tudo mantenho o caminho por mim traçado.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Monólogos
Desenvolvo monólogos improváveis com o cinzento. Os dez milhões de cores possíveis de serem captadas na minha retina vivem em jogos de sombras de todas as possíveis combinações. Vivências erguidas sobre múltiplas variação de lua cheia a lua nova. Condenado a viver entre um quarto crescente e um quarto minguante não resisto a evidencia da regularidade assustadora com que as fases saltam de uma para a outra bruscamente sem que as pontes intermédias sejam obedecidas. Incumprida a cadência natural das coisas neste universo de mim. Mutação... desobediente... Cronica... Constante... Instável... Imprevisível... Previsível somente o mudar de tudo o que pretendo que permaneça quedo. Queda... Abrupta... Imediata... Concentra suas intenções num único instante... Aguarda que baixe a guarda. Que sinta o sentindo ao que sinto... Para exibir seu sorriso de escárnio perante o meu de felicidade... Vejo como cada gota de chuva que do alto da insatisfeita nebulosidade sobre mim se precipita carregando a verdade simples da sua persistente existência. O seu impacto em mim revela-se purificante. Uma purga para o meu espírito irrequieto. Alivia-me as emoções errantes. Danço com ela um tango pleno de sedução. Comprometidos na entrega total, enfrentamos abertamente os desencontros que fomos vivendo pela vida fora sem o receio do julgamento. Nosso romance dura o instante marcado do embate anunciado com expectativa. Romance... Amor... Paixão... Sintetizada numa fracção de segundo sem tempo definido. Busco amparo ao espírito ilusório perdido no imaginário das memorias reais. Procuro conforto onde sei que ele não esta presente. Mutilo o bem estar com frio ou uma posição incomoda promovendo dessa forma o desconforto premeditado, mesmo correndo o risco limite de passar por discípulo de Leopold Von Masoch. Agrada-me a falta de posição. A incapacidade de mover. O fluir estagnado de uma ideia que não me abandona. Insaciável, consome-me sem perdão ou agradecimento. Merecimento de demérito consumado. Feito... Precocemente tardio pensamento que tarda em amanhecer no firmamento do meu ideal. Arrasto... Corro... Paro... Sonho pesadelos de alegria triste. Sorrio. Folheio livros que nunca ei-de abrir em busca de algo de que ainda não sei... O sabor do odor das folhas brancas salpicadas pelo veneno negro da tinta. Elixir. Cura. Panaceia. Droga. No milagre pagão ciclicamente ocorrido na implosão inspirada do ser observo a metamorfose das palavras que soltas agora, derivam em torno do nada que tentam mascarar como tudo. Lobo mascarado de cordeiro? Ou cordeiro de lobo mascarado? Meus textos fogem ao romantismo hipócrita. Fogem ao estabelecido como normal. Fogem de mim as palavras que os fazem. Tao simples... Tao complexo... Uma simples fuga de palavras de ideias complexas. Quantas vezes penso se não existem em equilíbrio instável, no limiar entre a racionalidade e a insanidade profunda... Quantos conceitos fui erradicando do meu léxico que neste momento sobra-me tudo o que falta em mim.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Corrente
Observo a correnteza de palavras que fluem de encontro a uma folha binária sem relevância táctil. Entrego-me ao clima bucólico sentado próximo da agitação, com ambições listrarias, que murmura abaixo de mim. Levanto-me. Decidido sigo nas margens do nada que contem esta massa uniformemente disforme de palavras, em sentido oposto ao movimento. Procuro a nascente subindo a montante. Múltiplas derivações vou encontrando, todas elas seguindo em simultâneo com uma perspicácia elevada. Nada quero que me escape na minha demanda pela origem ultima. Os primórdios. A palavra inicial. O ponto onde tudo faz sentido não o querendo fazer. Onde as palavras são pessoais e transmissíveis... Dadas... Livres... Presas... Opressivas... Libertadoras... Todas. Todas fluem da nascente que por mais que na selva do meu espírito me embrenhe sei que nunca irei encontrar. Liberto-me na minha limitação a contemplar o som purificador do odor das palavras agitadas que travadas ficam no afunilar do bico de uma caneta virtual. Tantas... Tao poucas... Que inundam a sequiosa vontade de escrever que inconsciente vive em mim.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Desnorte
Acordo perdido nos pensamentos. Em desnorte desconheço o norte. Renego o sul. Omito o oeste. Prescindo do este. Estou no centro da ideia onde não estou. Não vislumbro o caminho de palavras erguido que me oriente. Acometido de soberba vivo sequioso de ideias, constatando que na minha limitada condição apenas me restam palavras sem os sons que pretendo desenhar. Deformadas as palavras sobram frases disformes sem aromas. Simples sucedâneos. Como se pretendesse matar a fome de um bolo comendo um pão seco vivo na ânsia de saciar o desejo de encontrar tudo que me falta nas palavras que não fazem sentido. Ressequido pela desidratação da intempérie massacro tudo o que penso na virtual folha que escrevo a insanidade que corre em mim.
Ondas
Acorrentado à vontade de partir alegremente opressora despeço-me de mais uma ideia resiliente em mim com a satisfeita insatisfação de não querer segui-la. Cruzo a cinzenta réstia de humana civilidade em betão impressa envolta em neblina castradora das formas a um velocidade pendular. Apresso a chegada com uma nova partida. A eterna fuga rumo a algo que não existe torna compelida a escrita. Reescrevo o que ainda receio não ter escrito reconhecendo que nunca o irei fazer. Procuro a honestidade fria na subtil diferença da contradição. Com aprumo ou na ausência dele limito-me a escrever sem notar quais as palavras que atingem a aurora de uma nova frase. Não lendo o que assumo questiono-me da contextualidade ou falta dela. Mudo. Vejo o mar revolto com assombrosa satisfação. Sorrio. Adoro a força rebelde e sincera do mar que sem barreiras expressa a sua raiva de forma gutural, explosiva... Tento imaginar o odor da maresia libertada. Tento... Tento sentir as gotículas libertadas em cada onda que morre clara de consciência tranquila do seu dever maior cumprido com dedicada entrega à areia. Assim vejo as palavras do meu pensamento, pontualmente rudes mas delicadas e sinceras a mim.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Confluência
Vivo perdido em mim na certeza de me encontrar na confluência de tudo o que não existe em meu pensamento. No limbo... No nada... Na chuva. No vento. Nos sorrisos. Nas ruínas do que queremos esquecer onde penumbra dos pesadelos vive qual reflexo vivo da luz dos sonhos que não esqueço. Universo paralelo. Onde tudo faz sentido nada fazendo. Onde as cores não existem em função da luz mas à luz do imaginário. Improvável. Irrepetível. Irreal. Real. Suspiro em conluio comigo escutando a musicalidade que emana sem ser tocada sabendo que é efémera pois novos tons surgirão dos instrumentos que não sei tocar.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Bênção
Caminhei contando os incontáveis pingos de fria humanidade que bombardeiam a minha face submersa no vento. A cada passada sigo ao rumo a incerteza onde reina a consciência na inconsciente da vivência do dia a dia em que consumo a luminescência pura do meu pensamento. O vento torna-se só meu num egoísmo narcisista de tonalidade narcótica. Irreal dormência do espírito consome o tempo deixando-me absorto... Apartado... Vivo... Entregue ao pensamento repudio ideias aceitando apenas as improváveis pela beleza de uma bênção unívoca motivada pela impossibilidade torpe. Mais um dia ganho, perdido na busca do nada.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Retidas
Acordo parco em palavras. Retidas ficaram no imaginário dos sonhos. Anestesiado. Acordo com o pensamento agitado em torno de sonhos já dormidos. Draconiano renascimento diário a que me submeto numa doutrina dogmática na minha fé no sentir. Levanto-me de encontro a um frio que, pleno de maternal carinho, acaricia meu corpo fazendo-me vaguear num mercado imaginário onde as ideias apregoam as suas virtudes numa ânsia disforme em serem por meu pensamento seguidas evitando a sua extinção nos confins do instante impossível a que pertencem. Sem nexo nem vontade prescindo de todas por demasiadas serem. Pouca vontade tenho em escrever hoje... Tenho somente a necessidade de pensar no que não penso.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Dicionário
Sinto-me preso as palavras. As que me faltam. A todas as que não existem no dicionário. As que não conheço. As que esqueci. As que não foram inventadas. As que existindo foram violentadas no seu ser por um acordo ortográfico que visa a união da ignorância, não se preocupando em retirar a beleza mais singela a organização silábica que as faz palpitar de vida. Agrada-me a ideia do erro. A gralha. A desconcentração que origina a falha que tudo envolve em sinceridade. Fazem-me falta as palavras em mim.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Melancólico
Pairo estático acima das nuvens, de húmida alegria carregadas, exigindo-lhes que a mim entreguem sua vontade. Imóvel no ponto de interrogação da intersecção da realidade e a ilusão do meu mundo, permaneço contemplando de bem alto a cidade que teima em não acordar da letargia em que se encontra. Tudo observo. Tudo sinto. Escuto o troar distante do mar revolto, testemunha solitária da mudança de lua ocorrida. Inalo o verde da natureza ainda embebido na chuva que anoiteceu o dia anterior. Vejo as brumas difusas que envolvem parte da paisagem tornando-se fies depositárias do mistérios nelas contidos. Saboreio os sorrisos passados diluídos nos ecos da aragem fria que assola as ruas desertas. Na minha pele o toque subtil dos tons invernosos ilumina o meu espírito. O dia inspira um sorriso melancólico em mim.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Rodrigo Abrantes
O dia acordou tomado no abraço envolvente do luto. Constatei que Rodrigo Abrantes, pseudónimo de Eu Mesmo, não despertou do encontro com Morfeu. Numa atitude egoísta exacerbada deixou-se ficar no desconfortável conforto da estagnante inercia portadora de pensamento estéril. Já há alguns dias esta ideia incubava em mim, somente me recusei a admitir a evidencia cruel. Tenho deixado o Rodrigo ligado a maquina da vida do meu pensamento sem o visitar ou demonstrar intenções de o fazer. Vive assim o meu outro Eu na dormência de um sono comatoso perdido nos ventos da minha memoria, esquecido dos sonho que esteve na sua criação. Quis ele, em meu nome, domar a hercúlea tarefa de escrever um livro que retratasse, para mim próprio, a condenação de tudo o que em nos existe. os Nossos sonhos. Os que reconhecemos como perdidos e os que não queremos esquecer jamais. A realidade e o mundo de ilusão onde pontualmente existimos em pleno. As vivências... As experiências... Os sorrisos... Os risos... As lágrimas... O tudo deste todo que fui e faz de mim quem sou. Sinto hoje o luto. A nostalgia que me preenche sabe-me a hipocrisia sórdida. Se me preocupasse sinceramente com a sua existência regularmente o revisitava, obrigando o pensamento a viver omnisciente a sua presença e a sua dor de abandono cheia. Ao invés de manter a verticalidade que considero essencial, preferi, de forma premeditada, calar o seu ser em mim, traindo o meu próprio Eu. Ola Rodrigo Abrantes... Bem-vindo do mundo dos meus sonhos onde tens solto a tua imaginação. O Nosso livro não esta esquecido... Apenas será uma promessa adiada para sempre presente em Nos.
PS: Todas as promessas sao verdades incontronaveis que existem nas margens da vida.
PS: Todas as promessas sao verdades incontronaveis que existem nas margens da vida.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Tentado
O esgar de dor dos últimos minutos da noite iluminam o amanhecer com uma tonalidade sombria. Após a passagem teatral do frio solarengo sucede a chuva reflectida no cinzento profundo das nuvens carregadas do odor de raiva. Penso no que não fiz nestes últimos dias. Penso na preguiça indolente que de forma premeditada me impus sem qualquer restrição ou arrependimento. Entreguei-me ao ócio. Ao nada. Passei horas sem pensar ou tão pouco querer fazê-lo. Apenas me senti tentado em exercer a minha humana condição nas conversas cruzadas, de paladar insípido, com as quais fui bombardeado pontualmente ao ir beber café. Impressionante a falta de ideias... De vital inspiração vazio apenas me restou tomar o limbo como companheiro de infortúnio. Corroído pela vergonha baixo a cabeça sem contemplações. Remeto-me ao silêncio sem reticências aguardando melhor sorte para as palavras que existem em mim.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Perda
Perdi textos. Perdi emoções. Perdi momentos. Perdi. Muito. Escuto agora os gritos de vingança das palavras perdidas num momento de distracção. Gritos roucos. Fortes. Sentidos. Premeditados. Cruéis. Ferem-me...
Silêncio inspiro...
Ferem-me sem perdão... Vejo cada uma das palavras em mim cravadas quais facas rombas que me dilaceram o ser. Perseguem-me. Culpo-me. Tento não pensar. Tento contornar a consciência, que omnipresente me fustiga o espírito numa espiral de culpa sórdida há 48 horas consecutivas. Sucessões intermináveis de instantes de que me agoiram. Vergonha. Vergonha sinto.
Silêncio inspiro...
Pensamento expiro...
Sinto... Em inconsciencia tomei como seguro meu tempo na certeza de uma vitoria rápida numa luta de ganho fácil contra a tecnologia que domino. Perdi. Tento me lembrar de todas as palavras que soltei ao ritmo das emocoes que me invadindo tomaram as muralhas do meu castelo opaco. Impossível. Perda irremediável.
Silêncio inspiro...
Pensamento expiro...
Tormento suspiro...
Silêncio inspiro...
Ferem-me sem perdão... Vejo cada uma das palavras em mim cravadas quais facas rombas que me dilaceram o ser. Perseguem-me. Culpo-me. Tento não pensar. Tento contornar a consciência, que omnipresente me fustiga o espírito numa espiral de culpa sórdida há 48 horas consecutivas. Sucessões intermináveis de instantes de que me agoiram. Vergonha. Vergonha sinto.
Silêncio inspiro...
Pensamento expiro...
Sinto... Em inconsciencia tomei como seguro meu tempo na certeza de uma vitoria rápida numa luta de ganho fácil contra a tecnologia que domino. Perdi. Tento me lembrar de todas as palavras que soltei ao ritmo das emocoes que me invadindo tomaram as muralhas do meu castelo opaco. Impossível. Perda irremediável.
Silêncio inspiro...
Pensamento expiro...
Tormento suspiro...
Criado o erro, com ele viver tenho contrariado na angustia que perdura na realidade que se pinta diante dos meus olhos por saber que no raiar do amanha não reencontrarei tudo o que deixei fugir no tactear inconsciente . Suspiro dormente que calo em cada grito que ouso não soltar
Silêncio inspiro...
Pensamento expiro...
Tormento suspiro...
Em lamento vivo...
Pensamento expiro...
Tormento suspiro...
Em lamento vivo...
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Grosseiro
Salpico o papel virtual com palavras do pensamento esvaídas num caminho sem regresso aos confins do meu querer. Em que penso quando não penso em não pensar. Semeio sobre o papel lavrado pela paralela pauta a dúvida em punhados cheios de ideias contraditórias. Inútil considerar o inconsiderável. Apenas nas palavras consigo escrever a música que componho no meu interior. Fácil. Excessivamente fácil seguir a melodia que escuto ecoar incessantemente usando como batuta o aparo da caneta. Batuta... Batuta que por vezes toma a forma de um estilete ou um bisturi que rasga, com precisão cirúrgica, todas as camadas de protecção que ostento sem vergonha, criando em cada precisa incisão o jorrar de mil pensamentos que se encontram apartados da minha consciência. Outras... Outras a sua graciosa forma transfigura-se num acesso de raiva, sugerindo a de um escopro grosseiro e rombo que fractura sem qualquer clemência a superfície empedernida do meu ser, soltando restos do que aparentava ser uma couraça protectora em todas as direcções sem se preocupar com o resultado. Meramente objecto nenhuma utilidade lhe foi conferida que a da destruição bruta e visceral. Agrada-me... Agradam-me os contornos imprevisíveis que em mim toma este acto. Como se uma mistura heterogénea de Opera Buffa e Opera Seria com um libretto demasiado introspectivo e pouco perceptível. No entanto, nos meus ouvidos o canto de barítono do rasgar do papel pelo aparo e incrivelmente puro, sem distorções o revibracoes. Deixo-me levar qual a hipnose que nos leva guiados pelo grasnar de um corvo diluído na aura das brumas densas da nossa vontade. Receio a perda da minha capacidade auditiva peculiar.... Discernir na confusão o canto. A fuga. A alegria... O ódio... O nada do tudo que tenho... Ou... O tudo do nada que me assiste. Concentro nas palavras tudo que diluído vive em mim
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Árvore da Vida
Não sei qual o saber que procuro nas árvores despidas que a meus olhos surgem vestidas de verdade imaculada. A pureza ferida de cada ramo caído junto de si lembra-me todos os momentos que decidi deixar para trás. A sua queda no abismo do esquecimento não esquecido mostra-se essencial para a sobrevivência do ser maior que o continha. Sem mágoas, reconhecidos por terem existido num todo que em tempos terá feito sentido, os meus ramos vão caindo, nascendo novos, condenados a uma queda tecida nas margens do destino sobre si traçado. A cada perda de um ramo sangro a seiva da vitalidade, esvaindo-me de forma incontida sem mostrar arrependimento ou dor. Mas... Tudo fica. A textura ríspida do meu ser mantém presente as imagens... os sons... os odores... as cores de cada primavera que desponta a cada inverno que me afoga na friagem detestável que corrompe meu conforto. Renovo. Revejo. Relembro. Recrio. Mas este inevitável ciclo de perda não me destroi. Aos pés do meu ser estas memórias na forma de ramos fornecem o alimento vital ao pensamento tornando-me mais forte e consciente da Verdade que me assiste. Dogma da minha fé em mim própio subsisto e resisto. Persisto no perecer de mais um por do sol que aparta a luz e o calor do meu tronco, mas incapaz de me afastar do Caminho que para mim tracei. Imponente, a árvore da minha alma exibe orgulhosa as cicatrizes da sua vivência, cada entalhe, cada golpe das palavras vãs que lhe são marcadas com a lâmina afiada da mediocridade mesquinha das pessoas que comigo cruzaram e permiti desvendar quem sou. Isolado apenas partilho meus segredos mais íntimos inscritos nas minhas folhas, com uma ventania pontual que rasgando à força da sinceridade permito que me dispam carinhosamente em cada carícia partilhada num instante de entrega apaixonada ciente da brevidade do momento. Pouco pode restar da árvore... As folhas levadas... O tronco secado... Todos os ramos podem ter caído... Mas tudo do meu ser sobra em mim.

