terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Árvore da Vida

Não sei qual o saber que procuro nas árvores despidas que a meus olhos surgem vestidas de verdade imaculada. A pureza ferida de cada ramo caído junto de si lembra-me todos os momentos que decidi deixar para trás. A sua queda no abismo do esquecimento não esquecido mostra-se essencial para a sobrevivência do ser maior que o continha. Sem mágoas, reconhecidos por terem existido num todo que em tempos terá feito sentido, os meus ramos vão caindo, nascendo novos, condenados a uma queda tecida nas margens do destino sobre si traçado. A cada perda de um ramo sangro a seiva da vitalidade, esvaindo-me de forma incontida sem mostrar arrependimento ou dor. Mas... Tudo fica. A textura ríspida do meu ser mantém presente as imagens... os sons... os odores... as cores de cada primavera que desponta a cada inverno que me afoga na friagem detestável que corrompe meu conforto. Renovo. Revejo. Relembro. Recrio. Mas este inevitável ciclo de perda não me destroi. Aos pés do meu ser estas memórias na forma de ramos fornecem o alimento vital ao pensamento tornando-me mais forte e consciente da Verdade que me assiste. Dogma da minha fé em mim própio subsisto e resisto. Persisto no perecer de mais um por do sol que aparta a luz e o calor do meu tronco, mas incapaz de me afastar do Caminho que para mim tracei. Imponente, a árvore da minha alma exibe orgulhosa as cicatrizes da sua vivência, cada entalhe, cada golpe das palavras vãs que lhe são marcadas com a lâmina afiada da mediocridade mesquinha das pessoas que comigo cruzaram e permiti desvendar quem sou. Isolado apenas partilho meus segredos mais íntimos inscritos nas minhas folhas, com uma ventania pontual que rasgando à força da sinceridade permito que me dispam carinhosamente em cada carícia partilhada num instante de entrega apaixonada ciente da brevidade do momento. Pouco pode restar da árvore... As folhas levadas... O tronco secado... Todos os ramos podem ter caído... Mas tudo do meu ser sobra em mim.