terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Grosseiro



Salpico o papel virtual com palavras do pensamento esvaídas num caminho sem regresso aos confins do meu querer. Em que penso quando não penso em não pensar. Semeio sobre o papel lavrado pela paralela pauta a dúvida em punhados cheios de ideias contraditórias. Inútil considerar o inconsiderável. Apenas nas palavras consigo escrever a música que componho no meu interior. Fácil. Excessivamente fácil seguir a melodia que escuto ecoar incessantemente usando como batuta o aparo da caneta. Batuta... Batuta que por vezes toma a forma de um estilete ou um bisturi que rasga, com precisão cirúrgica, todas as camadas de protecção que ostento sem vergonha, criando em cada precisa incisão o jorrar de mil pensamentos que se encontram apartados da minha consciência. Outras... Outras a sua graciosa forma transfigura-se num acesso de raiva, sugerindo a de um escopro grosseiro e rombo que fractura sem qualquer clemência a superfície empedernida do meu ser, soltando restos do que aparentava ser uma couraça protectora em todas as direcções sem se preocupar com o resultado. Meramente objecto nenhuma utilidade lhe foi conferida que a da destruição bruta e visceral. Agrada-me... Agradam-me os contornos imprevisíveis que em mim toma este acto. Como se uma mistura heterogénea de Opera Buffa e Opera Seria com um libretto demasiado introspectivo e pouco perceptível. No entanto, nos meus ouvidos o canto de barítono do rasgar do papel pelo aparo e incrivelmente puro, sem distorções o revibracoes. Deixo-me levar qual a hipnose que nos leva guiados pelo grasnar de um corvo diluído na aura das brumas densas da nossa vontade. Receio a perda da minha capacidade auditiva peculiar.... Discernir na confusão o canto. A fuga. A alegria... O ódio... O nada do tudo que tenho... Ou... O tudo do nada que me assiste. Concentro nas palavras tudo que diluído vive em mim