sábado, 31 de outubro de 2009

Possibilidade

Não perdi as palavras... Somente as escondi. Guardei-as no longínquo espaço onde os meus sonhos de negro sangue tingidos repousam mudos gritando a viva voz sua vontade imensa. Apenas como estrela guia de volta elas me sobeja a ténue chama da vela chamada esperança que crepita ameaçada por um definhar consciente que a envolve. Deixo os olhos semicerrados e escuto as confidências lúbregues que a noite me sussurra envolta no seu manto. Confesso minha desilusão pontilhada por silêncios fantasmagóricos nas reticências que antecedem o pavor de todas as conclusões que mais tememos. Na minha invisibilidade leio um alivio gelado temperado por uma sopro de cólera contida mas visceralmente profunda. Antes agora que o suplicio da derrota total interiorizo... Interiorizar o que? A letra do meu fado?... Já não clamo por justiça. Baixo os braços. Tombo os olhos na calcada irregular que na minha imaginação ostenta uma simetria perfeita. Como posso esperar algo... Como... Espectar pela possibilidade quando em meu peito palpita secamente toda a certeza condensada na realidade onde vivo... Transporto os meus pensamentos para outros caminhos. Os olhos pesados pelo cansaço teimam em cerrar-se com a insistência do vento nas árvores... Arrasta-se-me a consciência para o meu mundo. Fecho os olhos na dormência do fim de mais um dia indiferente na ânsia de voltar a mim nas poucas horas que não estou vigil.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Renego

Renego o querer. Abstenho o pensamento. Reescrevo as palavras que flutuam, diluídas na neblina matinal existente, ao sabor da aragem que corre branda, como que pedindo perdão pelos erros que me atormentam. Esquecido, o sol cala seu canto matinal permanecendo mudo em complacência. Não mais quero o conforto. Não mais quero o bem estar pois passeio agora nas letras perdidas das palavras pintadas de uma folha em branco vazia de ideias em busca de mim. As palavras que perdi guardam o odor suave da terra que ressequida foi abraçada por uma chuva tépida redentora. E agora essa a minha batalha. Voltar a escrever. Voltar a descrever. Voltar a ser.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Credulidade

Em determinados momentos penso se não será ridícula a minha frustração... Se não toma o contorno de um missal toda a raiva ou desilusão que insisto em descrever, como se acima da mediocridade me encontrasse, ou tudo criticável fosse. Não deixo de rever mentalmente minhas culpas. Não deixo de sentir culpa por persistir em acreditar na incrédula condição humana que me rodeia. Penso na forma imatura e incrivelmente pouco perspicaz como a minha credulidade assume contornos aberrantes a cada decisão que tomo. Disforme e anedótico. Assim posso descrever. Se por um lado, ao abrigo de uma certeza inquestionável não acredito nas palavras que ouço por outro abro o flanco. Poucas são as pessoas em que acredito e são essas exactamente, salvo raras excepções que, rasgando a armadura com que protejo meu ser, ao abrigo de uma conivente cumplicidade minha, tudo arrasam. Neste dilema divago. Se as pessoas em que confio são as que mais devo desconfiar... Será isso que me escapa? Ou será isso que não quero ver? Ou será que continuamente viverei cego pelas ilusões reflectidas nas miragens dos sonhos que em mim habitam? Que posso fazer? Ensurdecer deliberadamente? Não permitir-me baixar a guardar? Não retirar a mascara? Não sentir? Não ser? Não viver? Talvez peque por um extremismo irracional o caminho tomado por minha divagação... Talvez na minha culpa deva começar a aceitar as pessoas como elas são e não como gostaria que fossem. Talvez... Talvez eu tenha de ser quem não sou.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Trôpego

Sinto em mim um cansaço insustentável que atesta todo meu ser de uma insatisfação cujo sabor roça perigosamente o da cólera. A pressão crítica atingida conduz-me vertiginosamente a uma saturação que não consigo contornar pelo desenhar errático das palavras que traduzem o que na minha alma habita. Impele-me para uma emergente vontade de gritar bem alto tudo o que de mau ocupa a perturbação que me assola. Sou, demasiado cobarde para faze-lo reconheço... Cobarde... Esse termo correcto fustiga as minhas cações impiedosamente sem demonstrar qualquer interesses em declarar umas tréguas humanitariamente salvadoras... Não consigo... Falta-me a forca interior para extirpar ou somente afugentar a confusão sórdida que impera... Nem na pureza imaculada do som do silencio da madrugada a paz envolvente que todo o caos corrompe se entranha na minha pessoa... Tudo se agita constantemente como se o caótico existir fosse a minha imagem de marca ou obrigação à minha pessoa inerente. Acometido por uma insatisfação sombria clamo por justiça condensada num suspiro a calma que foge diante de mim zombando das minhas infrutíferas tentativas de agarrar os meus desejos. Penso ofegante em todas as pessoas que têm o mais importante e vivem esquecidas da sorte magna que as ilumina. Imune... Imunizado... Estéril... Esterilizado gostaria de ser, na cinzenta constatação de reconhecer ser impossível para mim tal hercúlea tarefa. Arrasto-me. Abomino o sentimento de felicidade que me toma por ter a forca de escrever e pontualmente encontrar as palavras. Relembro os dias em que as palavras catárticamente fluíam em mim imparáveis quais guerreiras irredutíveis no cumprir da sua missão. Pensava nesse momento na sorte sobre mim jogada... Julgava ter sido tocado por um dom superior que me acompanharia eternamente no vogar nos dias em que o invernoso estado de espírito tomava seu ditatorial lugar em meu interior. Bons tempos em que o tempo morto preenchido era por palavras que brotavam sem querer tudo querendo... Como por magia as letras... As palavras... As frases... Aglomeravam-se num atropelo trôpego. Palavras sentia que tinha a mais... Agora que nem palavras tenho em mim resta a meu espírito aguardar pelo dia que em mim sobrevive esquecido na crença dogmática que nunca chegará. O dia que voltarei a mim.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Fatalidade

Tenho saudades do verão. Do inicio do verão. Do inicio do fim. Do calor. Relembro agora como ambicionava o frio ou ver o céu de cinzento tingido na ânsia de equiparar tudo o que me envolvia (e sufocava) ao meu estado de espírito. O sol, apesar de este Outubro já a muito ter passado da quinzena e roçar já o Novembro, insiste em tomar conta do firmamento, contrariando o meu desejo. Não almejo o locus horrendus próprio de um requiem tenebroso que rasgue o céu de negro enraivecido... Ou tão pouco a negritude funesta de um eclipse solar total.... Insisto apenas no cinzento... Na inexistência de sol. Na luz que toldada pelas nuvens, torna as sombras e os contornos difusos, como se O Todo ganhasse subitamente a consciência de identidade e comungasse em uníssono um estado de espírito cúmplice. Mas na minha constante complexidade sinto a saudade da chuva... De caminhar na praia sentindo a forca dos elementos contra mim. Sentir a frescura de cada gotícula precipitada sobre mim a entranhar-se nos recantos mas tenebrosos do meu espírito, limpando-o... Purificando o meu querer. Não consigo... Não consigo viver ser o antagonismo que me compõe ambiciono coisas opostas... A chuva fria envolta em cinzento e o calor solarengo. Não... Não posso continuar neste caminho desrruptivo... No entanto a atracão pelos opostos antagónicos matem-se viva em mim. A impossibilidade física das coisas cativa a minha atenção. Faz-me sentir vivo. Aguça os meus sentidos e o raciocínio que de lógico neste instante sinto que pouco tem. No entanto continuo a viver entre dois mundos.... A lógica fria e a emoção pura. Ambas em coexistência ora simultânea ora alternada. Evito... Evito ensandecer por ridículo ser esta forma de ser. Tenho de regressar ao ponto de partida... As questões que se colocam e quando onde e como me perdi inicialmente... Na fatalidade mais básica vejo como condenada esta ao insucesso a tarefa a que me proponho pois neste momento tão pouco sei onde estou... Tão pouco reconheço que sou.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Repenso

Repenso meu pensamento bombardeado por uma miríade de palavras de ideias desenhadas de forma solta em mim. Tatuo meu ser com tudo o que acredito num querer que imenso traduzido da vontade de nunca esquecer o que quero de mim olvidar. Na contradição de quem vive perdido nas palavras tudo relembro para voltar a esquecer num ciclo infernal que me tormenta o espírito. Vivo... Sobrevivo... Revivo... Ahh... Como bom seria erradicar do dicionário do meu ser a nostalgia. Largar num canto escuro tudo o que vivi. Perder-me das minhas memórias... Iniciar todos os dias uma nova vida! Qual lei de Murphy condenado estou a tudo o que mais quero e o que menos probabilidade tem de acontecer. A culpa é minha como alguém disse... Como vincado sinto em o cunho da verdade nessas palavras, gravadas em mim a fogo na íntimo da minha alma. Perdido estou em mim.

domingo, 25 de outubro de 2009

Apartado

Porque escrevo? Catarse? Espiar meus pecados? Desabafar meus desencontros? Carpir minhas magoas? Purgar a escuridão de soturno pensamento? Para que. Não sinto a paz que sentia. Pontualmente, reconheço que encontro paz no sono quando não sonho. Apenas quando não sonho... Apenas quando à dormência da inconsciência entrego meu ser consigo encontrar a paz almejada. Em modo vigil a pax primordial transpira de mim incontrolável... Não consigo conter a sua fuga... Saudades tenho agora do tempo em nas palavras reencontrava o que perdia no dia a dia. Encontrava alguém que julgava perdido. Encontrava-me.... Presente.... Sorridente... Por muito que peca... As palavras perderam o encantamento que em mim provocavam. O vicio... O vicio que sentia em escrever mais e mais porque em cada letra em cada palavra em cada frase redescobria-me... Revia o eu mesmo salvador. Encontrava sentido a tudo o que não faz sentido. Encontrava o norte... Ou o sul... A matéria primordial dos quais o pensamento e feito. Encontra os tons a preto e branco, friamente calorosos, com os quais pintamos a vida. Agora... Agora nada mais encontro que um caminho que desconheço. Circulo vagamente sem mapa ou pontos de referencia na escuridão do meu ser... Agora ando apartado de mim no interior da minha ausência.

Acreditar

Olvidado andava da sensação de ser invisível. No meu esquecimento inconsciente a consciência da inexistência andou solta no vento de uma miragem que apenas agora assentou no meu ser instigando queda súbita da realidade a que estou sujeito. Passo de forma despercebida qual uma simples folha amarela numa árvore de verde resplandecente. Aguardo que os vendavais de Outono, que insistem em tardar, me levem... Me façam voar para longe da árvore onde não encontro descanso. Sinto em mim a necessidade de mudar de vida. Mudar de estilo... De lugar... De cidade. De mim. Cansei-me. Estou fora de fase comigo próprio, como se de súbito o tudo que faz de mim quem sou se tivesse diluído, sobrando qual resquício ressequido, a insatisfação, a raiva o cansaço puro. Neste momento as minhas palavras pedem chuva. Clamam pelas gotas salvadoras que não me atingem... Preciso de lavar o espírito. Preciso de rever as minhas ideias e atitudes. Preciso de me perder de mim no entanto sinto o peso da cobardia. Sinto em mim a incapacidade de mudar. A incapacidade de acreditar nas pessoas pelo simples beneficio da duvida tolda meus sentidos nada fazendo sentido. Continuo... Já nem sei bem porque a acreditar em algumas (raras) pessoas... Apenas começo a não acreditar em mim.

sábado, 24 de outubro de 2009

Frio

Acordo no desconforto da friagem que chega tardia apesar de anunciada já pelo cair de folhas amarelecidas. Ainda trôpego com a sonolência de quem sente que o descanso não apaziguou o cansaço, cedo acordo na neblina húmida que pontualmente envolve a cidade num chamamento mudo mas tactilmente perceptível. Sinto o contacto com o vaporoso mistério de densidade variável. Caminho lentamente permitindo uma rendição incondicional a seus encantos. No gélido abraço em que me envolve sinto-me vivo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Restos

Penso na realidade que sobeja depois de perdida a esperança da doce promessa de tudo o que nunca acontecerá. Serpenteio entre os pequenos nadas sobre os quais se constrói o meu dia a dia sem ilusões misericordiosas. Perco a vontade da descoberta e fecho-me a sete chaves em ideias que voam bem mais alto rumo ao Olimpo dos sonhos que de mim evaporam ao ritmo da desilusão. Absorto no meu pensamento flutuo acima do destino traçado, rasgo as paredes como se de frágil papel fossem feitas tal a força de vontade que sinto em partir da prisão a que meu casulo me condiciona os movimentos. Perdido entre dois universos paralelos que se cruzam em frásica sintonia no ponto em que me encontro. Enquanto meu pensamento voa tudo o que de mim sobra arrasta-se num caminho sem que vislumbre a luz que busco.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sobreposição

Tento em vão sobrepor as pegadas por mim traçadas ao longo dos caminhos por mim percorridos. Incapaz sou de o fazer. Por motivos que desconheço não coincide a marca do meu ser actual com o quem já fui. Ao redesenhar as letras no sentido inverso que foram descritas não existe a sintonia que desejava encontrar. Não estou em fase com quem já fui. Sou um cego que deambula, num sonambulismo torpe, por caminhos que apesar de já conhecidos não identifica nada. Tropeço constantemente em todos os obstáculos que se me deparam. Sinto o vaguear de meu espírito ser guiado unicamente pelos sons ténues dos ecos da minha memória. Sem guia ou bengala salvadora tacteio, inspiro, escuto, todo e qual quer sinal de algo que me relembre ter ali estado.

sábado, 10 de outubro de 2009

Refém

Vivo refém do pensamento, sob o jugo de um desfiar constante de palavras perdidamente dispersas diante dos olhos de meu ser. Revejo em cada letra a aspereza das acções nelas contidas, rememorizando novamente, apesar de intensamente aspirar o esquecimento em segredo. Tento afogar em leitura fácil a insatisfação. No insucesso remeto-me ao silêncio.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Vazio

Acordo para uma realidade estranha. Vejo como sobrevivo sob o jugo das palavras que troam pelo meu pensamento, de forma constante qual chuva que batendo numa janela sem vidros desespero que passe. Enjeito em vão esta funesta praga que habita meu espírito. Ser vago de pensamentos e ideias ambiciono pontualmente ser. Vazio. Oco. Sem qualquer conteúdo. Mas... Não consigo. Apenas enquanto durmo tenho algum descanso do metálico martelar que corrompe minha paz de alma.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ausente

No interior do silêncio da minha ausência penso num pôr de sol distante de um solstício que na minha memória insisto em não olvidar. Penso no cheiro da praia, no gritar subtil da ondulação, na sensação da areia. Penso. Penso em tudo o que quis dizer e não disse. Penso na tua voz. Penso. Sinto. Tudo tão presente. Sei que não devia. Que simplesmente tudo deveria colocar para trás das costas. Seguir em frente. Qual travão que faz sentir a sua presença magnânima apenas enquanto sua raiva e audível mas que na sua breve existência tudo ilumina e faz tremer. Talvez seja essa a minha sina. A minha felicidade mais não ser que um breve instante intenso vivido a uma velocidade lentamente célere. Tento. Tento não pensar em tudo pensando. Tento não sentir tudo sentindo. Tento em vão subir as escadas dos sonhos quando destinado meu sentir está a manter-se quieto e mudo sentado no primeiro degrau rumo ao Olimpo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ilusão

Não quero mais contemplar ilusões de palavras feitas. Calo meu pensamento que eternamente persiste num divagar errante pelas veredas dos sonhos que não quer esquecer. Em esforço procuro na biblioteca da minha vivência vestígios, onde nos compêndios do meu imaginário penso talvez encontrar um sucedâneo que anestesie a vontade etérea que me preenche. Algo que focalize o ser em outras coisas que nada sejam pela sua insignificante importância mas que consiga expurgar meu sentir de quem eu quero bem. Talvez me minta. Talvez crie, para meu temor, uma nova ilusão que inocentada inocente culpa, inconsequente viva em mim, por mim, meu sonhos. Não quero desligar meu pensamento ate porque Já me consciencializei dessa impossibilidade tão almejada. Viverei enquanto pensar. Existirei enquanto sentir. Pois meu pensamento e meu sentir são um único ser vivente. Respiram numa cadência uníssona imperturbável. A perda de um implica o desaparecimento funesto do outro. Coabitam a mesma realidade espaço temporal do meu ser.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sem Titulo

Cansado das palavras
(estou)
Meras metáforas
De Mil ilusões reflectidas
Num pensamento
De ideias perdidas
Guardo meu sentimento


Penso no que não penso
Quero o que não quero
Sou quem não sou
Nada sou
Tudo sendo
Tudo quero
Nada tendo
Nada penso
Tudo sinto