3D
Tudo agora é 3D. Tudo... Filmes... Televisores... Futebol... Tennis... Em tudo a ficção buscamos o real. Na virtualidade fria que nada diz procuramos tocar a realidade. Tê-la no conforto da nossa casa. Contemplamos a vida através de umas lentes de um óculo policromático... sentados viajamos sem nos mexermos... Temos todo o mundo concentrado ao alcance da nossa mão num comando que nos comanda que nos guia o destino. Conseguimos finalmente buscar no virtual a realidade. Somos ridículos enquanto espécie... Dentro de pouco tempo podemos nos maravilhar com o romantismo da chuva sem nos molharmos... Tudo... É burlesco... Satírico... Regressivo... Repulsivo... Incólumes conseguimos percorrer o mundo inteiro num único dia... Ver o nascer do sol algures numa ilha tropical... Vislumbrar o pôr do sol algures num deserto e ainda termos tempo de vermos uma aurora boreal antes de desligarmos do estado vigil... Tudo é falso... Hipócrita... Mesquinho... Inútil... Requentamos ideias... Revemos vivências... Tudo em 3D. E o resto?... Os odores? O calor? O frio? Os sabores? O tactear... O sentirmos o incómodo da areia escaldante sob os nossos pés? Ou a textura de uma folha em nossas mãos... Ou o beijar do vento? Que fazemos a essas memórias? Onde as vamos compensar?... No conforto do sofá solitário, a avareza triste de um arrependimento esquecido de ser sentido desligamos o nosso ser em torno do nada. Os nossos olhos têm uma resolução de 250000000Mpx... Mas mesmo assim preferimos uma televisão que não chega aos 1mega pixels... Injusto... Desprezível... Penso em todas as pessoas que nasceram ou ficaram cegas. Todas essas pessoas que pensaram elas desta nova realidade? Se há 250 anos vivíamos sob a égide do realismo cruel, que na sua indiferença podia ceifar toda uma família com uma simples constipação... Agora que à realidade nos tornamos imunes vivemos uma socrática alegoria da caverna num terceiro milénio de indiferença..


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