quarta-feira, 9 de junho de 2010

Seis Anos

A noite foi arrasadora. Relembrei a sucessão de acontecimentos ocorridos à seis anos atrás. o tempo parou no tempo. Mal dormi. Acordei praticamente à mesma hora do tal telefonema que nunca suspeitei receber. Sinto todo o meu corpo dorido. Estou doente. Estou apodrecido nesta árvore seca de mim. Não me esqueço. Lembro-me perfeitamente da agitação. Da noite vivida. Do que vi. Do horror de te ver inerte. quieta... Abandonada de ti própria. Do dia seguinte e dos que se seguiram. A dormência total. O não sentir o meu corpo... Não sentir dor.. Não sentir rigorosamente nada. O Vazio total... Como se habitasse um mundo sem cor... sem dimensão... sem tempo... sem odor ou sabor. O zero. O fim. O limbo. Sentir o que é estar morto vivendo. Lembro-me... Como me lembro de andar a passear o Pantufas e não sentir o chão debaixo dos meus pés. Como se acima de tudo existisse... Num estado superlativo de ausência total de matéria e sentimentos. Morto. Não sentir vento. Não sentir calor. Não me sentir. Ou tão pouco sentir dor física. Sonhava... Acreditava estar a sonhar. Como se vivenciasse algo irreal, algo que nem na minha mente tivesse sido elaborado. Não me dava conta de nada. Do tempo. A noite e o dia fundiram-se sem que neles uma fronteira surgisse edificada. Somente saia porta fora sem destino ou nada dizer. Arrastava-me nas margens da indiferença. Consumido. Hoje talvez pela nostalgia do dia em si estou muito mais toldado pela saudade. Pelos momentos. Pelos instantes vivido. Pela Raiva. pela injustiça. pela falta que me faz o teu colo. Sinto vontade de chorar mas não o faço. Estou seco. gasto. consumido num processo de auto fagia emocional que me dilui. divaga... estou transparente. Traio a tua vontade. traio a memória que guardo de ti e dos risos partilhados. Da tua vontade. Da tua maternal maneira de ser que tantas vezes dizias o que eu não queria ouvir mas na tua sabedoria sabias que eu tinha que fazê-lo. Não esqueço. Lágrimas que em ti vi por mim. Pelo receio que sentiste no meu fim precoce numa altura mais conturbada minha, mas... mas no teu apoio encontrei as forças para rasgar com tudo. sabias... sabias que se não o fizesses hoje estas palavras escritas não estavam. lembro a forma brincalhona como, mesmo já crescido, a vaguear os trinta me olhavas e chamavas Bóbibo... Ou lagartixa do lavradio... como me conheces-te. como me lias. mesmo sorrindo apenas tu sabias que nada estava bem. Somente tu. Nunca compreendi como... talvez seja isso o ser Mãe. Talvez seja isso que me vai consumindo. Tenho saudades... não... a saudade peca pela excessiva limitação do seu significante.. lembrei-me agora de mais um instante. na escola primária a aprender a diferença entre o que é uma palavra de aglutinação e de justa posição. como desesperada pela minha falta de atenção me deste um tabefe. de como nunca mais falhei um única dessas palavras. de como nos rimos desse momento mais tarde. Sinto-me só... fazes-me falta. sinto a tua presença. a tua voz. escuto os teus conselhos... mas ainda hoje tenho dificuldades em conseguir olhar para uma fotografia tua. não consigo fazê-lo por muito tempo. Apenas de relance... não consigo compreender o motivo. talvez ainda esteja em Negação. Os nossos momentos sucedessem no meu pensamento... de como, mesmo não estando muito convencida da pessoa com quem ia casar, aceitas-te... como ficas-te feliz com a minha felicidade. pelo menos não viste o colapso... as mentiras... as histórias... a forma como neguei em mim o meu sentir por outra pessoa por me sentir culpado ao ver lágrimas falsas. não me vês agora. tantas vezes sem sorrir. sem rir. ou a fazê-lo a contra gosto. não sei... mas algo tenho a certeza... O deslizar dos dias pode ter secado as lágrimas mas jamais apagará a tua eternidade em mim.