quarta-feira, 19 de maio de 2010

How Fragile We Are

A noite conjurou mil rezas profanas contra meu ser... Como de uma maldição milenar se trata-se vi-as condensadas num pesadelo vivido em modo continuo. Excessivo... Sinistro... Vi-me atravessar alas de uma espécie de sanatório onde só existiam crianças... Apenas crianças... Em cada uma das salas vi os males que sofriam... Fome... sede... dor... abuso... guerra... morte... Sem nada poder fazer... Não me conseguia afastar da linha que me estava destinada... Não encontrei mais ninguém... Apenas eu e aquelas centenas de crianças que se amontoavam em cada sala... A musica era a mesma... Continuamente... A mesma.... Sempre... Sem alterar o volume ou qualquer outra manipulação sonora... On and on the rain will say how fragile we are how fragile we are martelava os meus sentidos... Ouvia em fundo choros... Murmúrios... Uns num tom mais alto outros mais baixo... Mas sempre presentes... Sempre invocando a magoa de cada uma mas que no ressoar se aglutinavam individuais na dor colectiva... Cores... Todas as cores presentes davam a cada sala uma nitidez arrasadora... Inenarrável... Que unidas às formas conferiam a tudo uma morbidez agoniante... Gráfica... Mortal... Cada golfada de ar que inalava vinha impregnada de um cheiro estranho... Como se uma mistura de suor... Morte... Desinfectante ... Não consigo descrever... Era algo... Como se a porta de um possível inferno tivesse ficado entre aberta e mostrados as piores imagens que podem ocorrer na nossa dita Humanidade. Em cada sala acordava.... Ao adormecer voltava... Regressava novamente... aquela casa... Mas de frente a uma porta que sempre igual não exibia qualquer indicação... Não vi letras... Ou frases... Nada... Como se tudo o que vi resultasse do esquecimento... Os sussurros que escutei não tinham uma língua definida... Como se falassem em uníssono uma linguagem universal que isenta esta de palavras ou estrutura... Tudo se perfilou como real diante de mim. No meu ateísmo convicto quis ser Deus... Curá-las... Dar-lhes vida... Aliviar o sofrimento de cada uma que sentia invadir meu espírito. Fazer das suas mazelas as minhas... Colérico senti uma raiva inaudita... Quis fulminar tudo e todos os que de alguma interferiram na felicidade de cada uma delas... Tudo e todos que aquelas crianças roubou o Ser Criança... Qualquer coisa... Algo... Acordei... Definitivamente... Sem ar... Sem força... Sentia-me dormente mas a arder... Vomitei... Fiquei quieto... Pensei no quão insignificante sou... Senti rancor... Raiva... Por tudo o que vi... Pela injustiça... Pelo sofrimento... Apercebi-me... A culpa e minha também... Nas lágrimas que vi, consigo ler a minha passividade... O meu esquecimento... Minha mediocridade. sei que foi apenas um sonho... Mas as imagens... As faces... As lágrimas... Os gestos de cada criança ficarão para sempre tatuados em mim...