quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Dança

A chuva hostil que invade as linhas com que escrevo as palavras de sensações vividas no livro do meu ser vem marcada pela aspereza crua. Observo o deslocamento descontrolado e desconexo da agua marcada pelas impurezas, da cegueira mundana, rumo ao fim do caminho que lhe esta destinado, uma vulgar sarjeta indiferente a sacralidade purificadora que esta transporta. Noto o flutuar disperso de uma folha amarelecida caída em seu regaço. Ganho tempo perdendo-me em pensamentos metafóricos carregados de analogias a humanidade que se mantém descrente a todos os nadas que tudo são com que é abençoada, mas no seu egoísmo déspota desvia o olhar para os tudos que nada são. A candura terna com que a agua embala a folha, fortemente marcada por uma existência difícil evidente em cada rasgão que ostenta com orgulho confrangedor. Penso como na maioria dos casos e preferível a visão de uma flor numa cor que nada nos diz a uma vulgar folha ressequida com a pigmentação verde da vida ausente da sua superfície. Preferimos o belo e o previsível mesmo que falso ou hipócrita, no entanto bradamos a plenos pulmões a nossa sincera verdade de falsidade feita. O rodopiar constante da folha ao sabor da corrente lembra-me uma coreografia perfeita entre dois parceiros que já se conhecem a muito. Complementam-se... De forma cega devíamos invejar o romance que mantêm, pois apesar de inertes em espirito reconhecem a importância de ambos na dança das suas vidas.

1 Comments:

Blogger Maria, Às vezes! said...

Maravilhoso... que sábias e belas palavras.

10:27 p.m.  

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