Feitiço

Acordei muito cedo nem cinco da manhã seriam, no conforto cálido da cama senti-me perturbado... Irrequieto... Sufocado... Convulso... Atormentado... Como se algo me perseguisse para lá da inimaginável realidade. Dou comigo a caminho da praia ainda imerso na escuridão sombria desenhada a traços grosseiros às mãos do Inverno. Deixo-me guiar pelo chamamento incontrolável de uma ansiedade incontornável. Fico quieto na escuridão sem esboçar qualquer ténue forma de movimento por mais subtil que seja. Assisti ao nascer do sol pintado sobre a tela de um céu nublado em tons pesados de cinzento profundo, rouco quase gutural. Durante o raiar fiquei siderado com o reflexo que a luz emergente lançou sobre o mar com contornos similares a um feitiço sem nome que se encontra perdido nas últimas paginas, jamais lidas, de livros poeirentos. A questão... A grande questão... O reflexo que sobre mim incidiu transportou consigo o feitiço. Nesse momento único, senti que eu o mar o vento a areia tudo... Tudo era uma única entidade, indivisível... universal Senti-me abraçado... Diluído... Quente.... Sereno... Como se algo... superior tivesse atingido... Alegria... Calma... confiança... Senti tudo. Não sei quanto tempo assim fiquei entregue a esta sensação. Mas quando sai da praia e fechei a porta do carro, tenho a certeza de muito ter mudado em mim. Senti como disse o Mestre Tenho em mim todos os sonhos do mundo... E digo-o com o sorriso de quem sonhou os sonhos que esqueceu.


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