voo

Sinto-me como um pássaro a quem foram cortadas as penas guia. Impedido fico assim de abri-las no céu dos sonhos que me preenchem a cada passo não dado a cada instante que sinto inacabado. Quebrada a possibilidade de voar onde o ser ganha sua verdadeira dimensão arrasto-me num chão duro por mim demasiadas vezes pisado. Revejo. Rememoriso. Revivo todos os desencontros de tempos idos como uma cicatriz que escondida, permanece visível no fundo do meu espírito, pulsando com intensidade renovada. Tento em vão pular para alcançar a sustentação necessária a manter-me acima da realidade insípida que piso. Tombo. Despenho-me numa queda incontrolável rumo ao chão da vida. Ergo-me. Ergo os olhos para onde outrora existi com a saudade sequiosa em ver o teu carro parado onde sempre o deixavas ou como olho fixamente para a porta de onde tantas vezes te vi sair apenas para dar um suspiro resignado na minha consciente inconsciência como quem erráticamente procura uma chave que em tempos teve ao alcance da mão. Suspirar a saudade me sobeja onde todo resto que agora eclipsado pernanece presente e vivo em mim.
Cerro os olhos pesados de mais um dia cuja luz tantos lhe gabam não mostrou. Escuridão ensolarada penso para ponta dos meus dedos. Diem perdidi sinto. Mais um dia que passo absorto no trabalho. Menos mal ao ver que assim passa mais rapidamente. Tento evitar adormecer. Oiço a orquestra das minhas emoções a tocar algo numa tentativa de colmatar tua ausência. Sinfonia aberrante onde cada instrumento que me compõe insiste em tocar por si isolados dos restantes. Sinto o caos em cada nota que ressoa nas paredes da minha alma . Fraco maestro penso.
Assim fico quieto e mudo ouvindo a musica de quem sou. Perdido. Rendido a uma evidencia atroz. Que por vezes apenas consigo sonhar em ambicionar sonhar.


1 Comments:
belas e profundas palavras.
os seus textos são suaves e tão profundos... uma fonte de inspiração para mais uma "queda incontrolável rumo ao chão da vida"
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