Minha Lua

Atravesso a ponte contemplando com saudades a distante lua, companheira de tantas noites perdidas na consciência dormente de tudo o que não pretendo esquecer. Iluminado o rio com seu reflexo revela a calma pagã de todos os sonhos acordados nas palavras que apenas escrevemos sem nunca conseguirmos ouvir. Envolve-me em seu regaço. Acaricia-me a fronte cansada de mais um dia perdido no ritmo frenético de quem não pretende esquecer as emoções que neste mundo invisível tornam-se profanas. Sinto a frescura da brisa que na ternura da sua passagem alivia-me o martelar constante da caótica cacofonia que detestavelmente sou obrigado a vivenciar preso nas quatro paredes de um open space partilhado por centenas de rostos sem identidade. Embala-me a noite elevando meu pensamento ao voo mágico do desfilar de ideias. Revejo. Revejo-te. Revejo-nos. Naquele fim de noite abraçados. Distantes do mundo que insiste em não parar o seu movimento perpetuo mas que, no nosso abraço, imóvel ficou enternecido pela sinceridade que julgava perdida e erradicada do humano sentir iluminados pela lua que fazia sentir a sua presença em cada silêncio trocado. Assim ficámos. Minutos que pareceram anos. Demasiado rápido. Tremendamente curto para quem sente que viveu uma eternidade na vergonha de não poder dizer todas as pequenas palavras que tudo são. Quem apenas na companhia do seu sentir confessava no espelho branco do papel manchado pela tinta das emoções tudo o que calava sentindo. Com o olhar de quem vê um sonho distante chegar absorver o reflexo das palavras que em surdina tantas vezes te disse dentro de mim. Sorrio. Sorrio ao pensar no teu olhar de quem tinha encontrado a ponta a meada da vida que a tanto tempo insistia ora em esconder-se ora fugir, serpenteando entre as desilusões que o nossos sonhos destroem. Apartámo-nos. Sem antes me dizeres se queria ir a outro lado. Se queria? Meu deus como queria. Como queria precorrer o mundo através do olhar do teu ser. Mas ao ver o teu olhar já cansado de um dia que tarde se fazia apenas pude me derreter emocionado e dizer no meu egoísmo abnegado para irmos para casa. Como? Como pude? Tive a hipótese de te ter em meus braços mais tempo, prepetuando a eternidade, nem que por mais um inquantificavel instante, tudo o que me escapou durante anos escorregando no universo das minhas cobardes decisões. Mas no instante do julgamento em ti pensei. Não apenas por que te amar mas porque o amar só faz sentido quando vivemos como um rio que transporta omnisciente na sua vontade o bem do outro. Poderemos não ter uma vida mas aqueles minutos serão para sempre nossos refletidos no brilho eterno da lua.


1 Comments:
"Não apenas por que te amar mas porque o amar só faz sentido quando vivemos como um rio que transporta omnisciente na sua vontade o bem do outro. Poderemos não ter uma vida mas aqueles minutos serão para sempre nossos refletidos no brilho eterno da lua."
belo, profundo e eterno*
As suas palavras lembraram-me Ricardo Réis
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