sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Inferno

Sonhei, esta noite, com o inferno. No meu sonho tinha-me encontrado nas infernais profundezas da vida, rodeada pelos meus mais terríficos receios, sufocando em mísera e sofrível agonia. Abracei-me. Do abraço surgiu uma luz tão forte que me iluminou o caminho. Acordei. Acordei com lágrimas nos olhos e um enorme e sufocante aperto no peito. Chorei. Chorei de uma forma muda. Não conseguia emitir qualquer som da minha boca, os meus lábios por alguma razão permaneciam mudos… a minha dor era demasiado intensa. Levantei-me. O meu cão veio ter comigo, sem fazer qualquer manifestação de alegria por me ver. Encostou a sua cabeça à minha perna e assim permaneceu quieto a olhar para mim. Parecia comungar da minha dor, parecia compreender que eu precisava de silêncio. Nas minhas nocturnas insónias tomo a silenciosa noite como companheira. É a minha confidente, meu ombro amigo. Com ela posso em silêncio falar. Ouve-me, sente quem sou e o que sinto… Abraça-me na sua escura existência. Envolvido permaneço na sua compreensão, embalado pelo seu chamamento e doçura até ao raiar do sol. Nasce o sol e coloco a máscara. A máscara de quem não sou e não quero ser. Em fantasma me transformo, com o vítreo olhar a mirar o infinito e indesejado futuro. Sou transparente ou tento ser. Faço os possíveis por não ser olhado. Quem sou? Gostava de saber! Perdido me encontro no limbo do meu pensamento. Busco incessantemente a porta de saída mas a chave perdi num momento de cobardia.